Discurso de Ademar Amaral em Saudação ao Beneméritos

SAUDAÇÃO AOS GRANDES BENEMÉRITOS E MEMBROS HONORÁRIOS (AALO)

Ademar Ayres do Amaral

Na tarde do último dia 3 de junho, recebi um telefonema do meu prezado amigo Célio Simões. Exibindo a costumeira habilidade de todo grande advogado, ele me falava, com a empolgação de sempre, sobre o grande desafio de tornar realidade a criação da Academia Artística e Literária de Óbidos. Comentava sobre o andamento dos trabalhos e sobre as dificuldades que estava enfrentando para a implantação da nossa entidade. Eu ouvia tudo com a máxima atenção que um assunto desses requer, mas, lá do fundo da minha alma, uma voz me dizia que aquele não era um simples telefonema. De fato,  após argumentos certeiros, não tive como declinar do honroso convite para fazer a saudação aos nossos ilustres agraciados desta noite, com os títulos honoríficos de Grandes Beneméritos e Membros Honorários, concedidos pela nossa Academia, e um título honorífico de Cidadã Obidense, concedido pela Câmara Municipal de Óbidos.

Eles, em primeiro lugar, e um chamamento natural para sermos mais participativos diante da realidade que nos cerca, me fizeram avalizar a sublimidade deste momento e me impeliram à esta honrosa tarefa de ser porta-voz dos meus confrades para esta homenagem justíssima a tão dignas pessoas. São personalidades que, por sua ligação espontânea com Óbidos, por sua intelectualidade, capacidade profissional e, sobretudo, retidão de caráter, muito dignificam nossas tradições, nosso glorioso passado histórico e nosso presente, reafirmando os ensinamentos do mestre Machado de Assis quando, em carta a Joaquim Nabuco, escreveu que o passado ainda é a melhor parte do presente.

Nossos agraciados são a prova definitiva de que este país não será grande e muito menos próspero, sem passar por uma política educacional séria. A hora é de muita reflexão, de deixarmos de lado o egoísmo e as discussões de cunho meramente político-partidárias, de nos unirmos numa gigantesca cruzada em prol da educação. A queda vertiginosa na qualidade do ensino básico nos preocupa. Vivemos uma realidade em que a regra não escrita de levar vantagem em tudo, se sobrepõe a todas as outras e parece que virou mania nacional. Conceito que foi se arraigando ao longo do tempo e que acabou por se refletir internamente e até fora do nosso país, como se essa fosse a marca da nossa maior virtude. Bem a propósito, há poucos dias concluí a leitura de Notícia de um Sequestro, relato verídico e produto da pena sempre reluzente do grande Gabriel Garcia Márquez, onde me deparei com um trecho que é o resumo da situação caótica em que nós nos encontramos. Assim se expressa o autor de Cem Anos de Solidão:  “Uma droga mais daninha que as mal chamadas em espanhol de heróicas, se introduziu na cultura nacional: o dinheiro fácil. Prosperou a idéia de que a lei é o maior obstáculo para a felicidade, que aprender a ler e a escrever não serve para nada, que se vive melhor e com mais segurança como delinqüente do que como pessoa de bem.” Palavras sabias sobre uma Colômbia que vivia a mercê de um período difícil da sua história recente e muito similar ao que estamos presenciando, em nosso país, onde não há mais o menor respeito pelas instituições, pelo direito e pela vida humana.

A Academia Artística e Literária de Óbidos se propõe a lutar para a divulgação dos melhores valores da nossa sociedade e da nossa cultura. É mais uma voz que se engaja para atuar contra esse estado absurdo de coisas, e marca sua fundação por medalhar pessoas que, absolutamente, nunca precisaram usar do lastimável recurso de levar vantagem para serem vitoriosas. Venceram unicamente por seu talento, por seu esforço e por sua conduta honesta, sendo modelos de vida para todos nós. Ao saudar uma figura notável de seu tempo, Cícero prestou-lhe uma homenagem com estas singelas palavras: “ninguém chega a sábio por acaso”. Nesta hora, faço minhas as palavras do célebre e maior orador romano, para saudar os nossos ilustres outorgados.  Educação e respeito às instituições tem tudo a ver com o extenso currículo de cada um deles. Vidas tão ricas que poderíamos passar horas a discorrer sobre seus feitos e realizações. Assim, permito-me fazer um resumo sobre a trajetória desses sete baluartes, o que torna fácil entender o motivo da acertada propositura dos seus nomes. Para o título honorífico de Grande Benemérito, tivemos:

Édson Raymundo Pinheiro de Souza Franco ou, simplesmente, Dr. Edson Franco, como é conhecido e festejado até mesmo pelas mangueiras que nos dão sombra nas ruas desta Belém. Bacharel em direito pela Universidade Federal do Pará, advogado, jornalista, professor universitário, escritor e, sobretudo, educador com vários livros publicados. Dr. Edson Franco é, sem a menor sombra de dúvida, uma das maiores autoridades em administração educacional no Brasil. Foi Secretário de Educação do Estado do Pará, Secretário Geral do Ministério da Educação e membro do Conselho Estadual e Federal de Educação. Fundador do CESEP que foi a origem da Universidade da Amazônia, a nossa tradicional e conceituada UNAMA.  Reitor da UNAMA, membro e presidente da Academia Paraense de Letras e fundador da União dos Juristas Católicos de Belém. Nosso homenageado, também é membro de diversas associações, valendo destacar a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior e da Fundação Instituto para o Desenvolvimento do Ensino Superior Particular.

Nosso presidente, Célio Simões, por diversas vezes tem se referido ao apoio que recebeu do  presidente da Academia Paraense de Letras desde o momento em que a lhe comunicou a intenção de criar a Academia Artística e Literária de Óbidos.

Nossa homenageada Sônia Maria de Macedo Parente, nasceu em Belém do Pará, mas passou parte da sua infância na cidade de Abaetetuba. Diplomada em Direito pela Universidade Federal do Pará, ingressou no Tribunal de Justiça do Estados do Pará como Pretora do Termo de Santarém Novo, Comarca de Maracanã, em maio de 1966. Aprovada em concurso público,  em  1969 aconteceu sua nomeação para o cargo de Juíza de Direito da Comarca de Óbidos onde, após 10 anos de excelentes e inesquecíveis serviços prestados àquela Comarca e sua comunidade, foi promovida, pelo critério de merecimento, para a Comarca de Paragominas. Depois respondeu pelo expediente da Diretoria do Fórum e pelas 5ª, 6ª, 7ª e 8ª Varas Cíveis. Em 1999, mais uma vez pelo critério de merecimento, foi promovida para o cargo de Desembargadora, tendo sido empossada naquele mesmo ano. Hoje, a Dra. Sônia também ocupa o cargo de Diretora da Escola Superior da Magistratura. Assim como o Dr. Abdias de Arruda, lendário juiz que deu nome ao Forum da cidade de Óbidos, a Dra. Sonia Parente foi uma magistrada que, pelo seu trabalho,  dedicação e competência, marcou de modo indelével sua passagem nos 10 anos em que morou, repito, morou na Cidade Presépio. Cidadã obidense, não temos nenhuma dúvida de que o seu grande coração belenense / abaetetubense, preserva um canto espaçoso e muito especial para a nossa querida cidade de Óbidos que hoje, através da nossa Academia, lhe presta esta justa homenagem.

Nossa outra agraciada, Dra. Francisca Oliveira Formigosa, é paraense de Vila Urucuzal, Município de São Sebastião da Boa Vista. Foi diplomada em Direito pelo Centro de Estudos Superiores do Estado do Pará – CESEP, e em Licenciatura Plena em Letras e Artes, pela Universidade Federal do Pará, com cursos de Especialização, Mestrado e Doutorado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ingressou na Magistratura Trabalhista através de Concurso Público para Provimento ao Cargo de Juiz do Trabalho Substituto, tomando posse em outubro de 1985. Em 1990 foi promovida à Presidência da Junta de Conciliação e Julgamento de Óbidos, onde permaneceu por dois anos, quando foi presidir a Junta de Conciliação e Julgamento de Santarém por mais 3 anos. Promovida, por critério de merecimento, ao Tribunal Regional do Trabalho da 8ª. Região, foi Corregedora Regional, Vice-Presidente e atualmente é a Presidente do TRT da 8.º Região, para grande satisfação dos muitos amigos que deixou em Óbidos. Na época em que atuou como Juíza do Trabalho, em nossa cidade, deixou a marca da sua competência como magistrada, num belo trabalho de pacificação dos conflitos sociais, contribuição com iniciativas culturais, como o lançamento do livro “POESIAS”, do poeta Saladino de Brito, patrono da Cadeira n.º 28 da nossa Academia. E, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados ao Município, a Câmara Municipal de Óbidos outorgou-lhe, por unanimidade, o título honorífico de “Cidadã Obidense”.

Nosso quarto agraciado com o título de Grande Benemérito é Élcio Amaral de Souza. Filho de Podalyro Lobo de Souza e Antônia Amaral de Souzanasceu na Fazenda Nava, Município de Juruti. Estudou no Grupo Escolar José Veríssimo, depois foi para Santarém estudar no Colégio Dom Amando e na Escola Rodrigues dos Santos, a tradicional Escola de Comércio. Graduou-se em Gestão de Orgãos Públicos pela Faculdade Integrada do Tapajós. Foi lojista, Presidente da Associação Comercial de Santarém, Presidente do Clube de Diretores Lojistas, Presidente do Rotary Clube Santarém e, na década de 80, se elegeu um dos vereadores mais votados da cidade. Mas o interesse maior de Élcio Amaral sempre foi e sua paixão pela pesquisa história e arqueológica do Baixo Amazonas. Autodidata no assunto, foi assistente arqueológico e passou a fazer parte da equipe das arqueólogas Anna Roosevelt e Denize Gomes. Anna Roosevelt descobriu provas de uma civilização de 8 mil anos no sítio Taperinha, próximo a Santarém, e de outra de 11mil e 200 anos no município de Monte Alegre, ambas com repercussão internacional. Com Denize Gomes, arqueóloga pesquisadora das artes tapajônicas, Élcio participou do trabalho de identificação dos sítios arqueológicos urbanos da cidade de Santarém. Foi Secretário de Cultura de Santarém na administração do prefeito Lira Maia, é cronista, palestrante, membro fundador da Academia de Letras e Artes de Santarém, e está finalizando uma pesquisa sobre a história dos ciclos econômicos do Baixo-Amazonas. Não bastasse suas atividades, Élcio tem merecido dos obidenses, a alcunha de Consul da cidade de Óbidos, tal é a atenção que ele  dedica aos conterrâneos que o procuram na Pérola do Tapajós.

Para Membros Honorários, nossos confrades elegeram três obidenses que muito dignificam a nossa terra:

Podalyro Amaral de Souza, nasceu em Óbidos, cursou o primário no Grupo Escolar José Veríssimo, ginásio e científico no Colégio D. Amando, de Santarém, de onde saiu direto para passar em um dos mais concorridos vestibulares do Brasil: o da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Fui contemporâneo de Podalyro no tempo do inesquecível Colégio Dom Amando, onde ele se consagrou com um dos mais brilhantes alunos que  passaram naquele educandário. Vocação rara para as ciências exatas, Podalyro graduou-se Engenheiro Civil, concluiu Mestrado e Doutorado, todos os títulos conquistados na Escola Politécnica da USP, onde ainda leciona Hidráulica Geral para graduação, e disciplinas no programa de pós-graduação. Já orientou ou co-orientou mais de 40 dissertações de mestrado e doutorado em engenharia, teve participação em mais de 70 bancas examinadoras de mestrado e doutorado, além de participar de diversas bancas de comissões julgadoras em concursos públicos.
Ministrou aulas de Mecânica dos Fluídos na Escola de Engenharia da Universidade Mackenzie e na Faculdade de Engenharia da FAAP.
Estagiário, por um ano, na Hydraulic Research Station (na Inglaterra), é autor de  livros e de mais de 20 trabalhos científicos publicados em Congressos. Continua atuando como pesquisador e atualmente é membro da comissão de pesquisa da Escola Politécnica da USP, representando o Departamento de Engenharia Hidráulica e Sanitária. Tal é sua competência e a confiança que desperta nessa área da engenharia, que grandes obras de hidroelétricas já construídas no Brasil, só saíram graças à consultoria competente do  Dr. Podalyro Amaral de Souza.

Nosso outro Membro Honorário, Rider Nogueira de Brito, é o segundo dos filhos homens, do poeta Saladino de Brito e de sua esposa Altamira Nogueira de Brito. Nasceu na cidade de Óbidos, estudou no Grupo Escolar José Veríssimo e cedo veio para a capital do Estado, onde concluiu o segundo grau no Colégio Estadual Paes de Carvalho. Ao se graduar Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Pará, já era Técnico Judiciário e Analista Judiciário do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região, e foi Diretor-Geral de Secretaria do TRT. Em 1968, foi aprovado em primeiro lugar para Juiz do Trabalho substituto e passou a presidir a Junta de Conciliação e Julgamento de Santarém. Foi professor titular de Direito do Trabalho e Direito Processual do Trabalho na UNESPA.
Juiz Togado do TRT da 8ª Região, Presidente e Corregedor do TRT da 8ª Região, desde 1992 ele já integrava listas tríplices para preenchimento de vaga de ministro do TST. Finalmente, em dezembro de 1995 o Dr. Rider assumiu a vaga de Ministro do Tribunal Superior do Trabalho.Foi Corregedor-Geral, vice-presidente do TST, Membro Nato do Conselho Superior da Justiça do Trabalho e Presidente do Tribunal Superior do Trabalho, para o biênio 2007/2009. Ao lado do obidense Raymundo de Souza Moura, Rider Nogueira de Brito foi nosso segundo conterrâneo a atingir esta invejável posição, na magistratura trabalhista brasileira. Após 50 anos de relevantes serviços prestados à justiça trabalhista, Rider Nogueira de Brito agora poderá dar vazão aos seus passatempos prediletos: visitar sua inesquecível Óbidos com mais frequência e se deliciar em gostosas pescarias pelos rios e lagos daquela região.

Manuel Ayres nosso terceiro agraciado com o título de Membro Honorário, é médico, cientista e intelectual, foi o penúltimo dos seis filhos do farmacêutico José Cardoso Ayres, o seu Ayres da Farmácia Esculápio, e de Ana Michiles Ayres. Estudou na Escola São Francisco, fez o ginasial no Colégio Estadual do Amazonas e o pré-médico no  tradicional Colégio Estadual Paes de Carvalho. Em 1948 graduou-se médico na Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará, como um dos mais brilhantes alunos da instituição. Formado e com diversos estágios acadêmicos, Manuel Ayres foi exercer a medicina na cidade de Óbidos. Montou consultório nos altos da Fármácia Esculápio e foi médico da Santa Casa de Misericórdia de Óbidos. Em 1949 viajou para cursar especialização em Pediatria, no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Retornou a Óbidos, mas a voz da cidade grande já o chamava. Mudou-se para Belém, abriu consultório e logo se tornou o pediatra mais requisitado da capital, onde também veio realizar um outro grande sonho de vida : o de se tornar professor. Foi docente em pediatria na Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará, defendeu tese de Doutor em Medicina e para Docente Livre de Pediatria e Puericultura na UFPA, fez especialização em Genética na Universidade de Michigan, Fundou o Laboratório de Genética da UFPA, foi Diretor do Centro de Ciências Biológicas da UFPA, Secretário de Saúde do Estado do Pará, Conselheiro e Presidente do Tribunal de Contas do Estado do Pará.

Estudioso da Estatística e da Informática uniu essas ciências como professor de Bio-Estatística para cursos de mestrado e doutorado. Publicou vários trabalhos e livros, dentre eles o Bioestat, hoje em 5ª. Edição, destinado a alunos de graduação e pós-graduação, com edição também para países de língua espanhola.

Manuel Ayres é membro de diversas sociedades médicas, e desde 1955, da American Academy of Pediatrics. Foi fundador da Sociedade Paraense de Pediatria e agraciado com inúmeras medalhas, dentre elas a de Professor Emérito da Univ. Federal do Pará.

Ainda muito ativo, aos 84 anos, Manuel Ayres continua sua intensa cruzada como professor, ministrando, gratuitamente, aulas de bioestatística, para cursos de mestrado e doutorado, na UFPA e, como professor convidado, em outras Universidades fora do nosso Estado. Faço questão de dizer ao nosso agraciado, Dr. Manuel Ayres,  que um dos maiores orgulhos que eu trago na vida é ter o privilégio de ser seu sobrinho e neto do seu Ayres, da Farmácia Esculápio.

Agradecendo a presença das personalidades agraciadas, dos nossos familiares e convidados, fecho esta saudação com um pequeno trecho do discurso da renomada escritora Nélida Piñon ao ser empossada na Academia Brasileira de Letras:“Sei bem que a vida nos regala sentimentos de transcrição penosa. Sob a égide, contudo, dessas emoções, quantas delas sem nome, reunimo-nos aqui, agora, trazidos pelo consolo de nossas discretas crenças. Certos, porém, de que enquanto formos capazes de honrar a modesta aliança que até em meio às trevas estabelecemos com nossos respectivos sonhos, terá valido, para nós, esta viagem que cada qual iniciou na fonte da sua origem”.

Vida longa à Academia Artística e Literária de Óbidos !

Muito obrigado.

Belém (Pa), 25.06.2008

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