ÓBIDOS

Apresentação de Célio Augusto Simões sobre Óbidos em 25.06.2008

ÓBIDOS

Célio Augusto Oliveira Simões

Óbidos é considerada uma cidade histórica pela sua arquitetura portuguesa e pela ativa participação em alguns episódios da vida nacional, como a Cabanagem, a Revolução de 1924, a Revolução de 1930 e a célebre Revolução Constitucionalista de 1932, na qual foi a única unidade militar do norte do Brasil a aderir ao movimento liderado por São Paulo.

Está estrategicamente localizada à margem esquerda do Rio Amazonas, na chamada “Garganta” ou “Passagem Heróica”, onde o rio mede apenas 1.892 metros de largura, com uma profundidade insondável, que permite o trânsito de navios de qualquer calado. Dista em linha reta 779 Km da Capital e se situada a 35 metros acima no nível do mar, limitando-se ao norte com o Suriname e a leste e oeste, respectivamente, com os Municípios de Curuá, Alenquer, Juruti, Oriximiná e Santarém.

Os principais acidentes geográficos do município são: o próprio Rio Amazonas, a Ilha Grande, o Rio Trombetas, a Costa Fronteira, o Lago Pauxis e a Serra da Escama, com 167 metros de altura, berço da Defesa Gurjão, assim batizada em homenagem ao herói paraense General Hilário Gurjão, que ainda chegou a visitá-la, a quando da inauguração dos seus 04 canhões Armstrong de 152 milímetros, que diuturnamente vigiavam a entrada do “Paraná-de-Baixo” e do “Paraná-de-Cima”. Quando em atividade, nenhuma embarcação subia ou descia o Rio sem escapar de sua vigilância, feita através de potentes telêmetros.

As atividades econômicas básicas do município são o extrativismo de produtos vegetais, como a madeira e a castanha-do-pará, a agricultura da mandioca, do milho e do arroz, a pecuária de corte e a pesca de espécies saborosas como o tambaqui, o pirarucu, o acari, o tucunaré, o surubim e o inigualável jaraqui. Possui um comércio atualmente em ascensão pela atividade minerária desenvolvida pela ALCOA em Jurutí, bancos, repetidoras de TV e rádios locais, de vital importância para o homem do interior, carente de entretenimentos.

A relevância estratégica da localização de Óbidos foi notada desde o princípio da exploração do Rio Amazonas, considerando sua posição na parte mais estreita e profunda, fato marcante do ponto de vista militar e por isso mesmo propício para a construção de um forte, capaz de garantir a defesa da região contra os inimigos da coroa Portuguesa. Afora tal aspecto, a catequese dos índios Pauxis feita pelos padres Capuchos da Piedade muito contribuiu para a formação do primeiro núcleo em torno da recém-criada fortificação.

Em 1697, viajando pelo Rio Amazonas, o Capitão-General Português Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, ao passar pelo local, determinou a Manoel da Mota e Siqueira que procedesse à construção de um forte no promontório da margem esquerda do rio, abandonando a idéia de erguê-lo na localidade de Ituqui, em Santarém, sendo o mesmo denominado de Forte dos Pauxis, em homenagem à tribo indígena que contribuiu para sua construção. Os frades da Piedade para lá se transferiram, levando grande número de indígenas do Rio Trombetas, formando uma grande aldeia mais tarde chamada ALDEIA DOS PAUXIS.

O Governador da Província do Grão Pará, Capitão-General Português Francisco Xavier de Mendonça Furtado deu-lhe maior dimensão política, elevando-a à categoria de Vila em 25.03.1758, passando a se chamar VILA DE ÓBIDOS. Não obstante, por injunções políticas foi obrigada a recrudescer para o nome de Vila Pauxís por decisão do Conselho do Governo Provincial do Pará de 17.05.1833, assim permanecendo por 21 anos, até que, finalmente, pela Resolução n.º 252, de 02.10.1854, foi elevada à categoria de cidade, com o nome de Óbidos, em homenagem à homônima cidade portuguesa.

O traçado do centro urbano, no qual ganham destaque os casarões coloniais assinalados pelo “Museu Contextual”, afora as ruelas curvas e aladeiradas, deram-lhe o título de “cidade mais portuguesa dos trópicos”. A singularidade de sua topografia, plantada que está numa colina que avança para o Rio Amazonas, permitiu que fosse tradicionalmente chamada pelos obidenses de “Cidade Presépio”. Sua peculiar arquitetura foi estudada pela professora Jussara Derenji, Diretora do Museu da UFPa, que em 1997 publicou o livro “Caderno de Arquitetura I – Óbidos” sob os auspícios da própria Universidade e do CNPQ, sendo leitura obrigatória de quantos desejam familiarizar-se com as características da “Cidade Sentinela”, outro de seus carinhosos apelidos.

Ainda na área urbana e como interessantes atrativos, podem ser visitados:

1.            O Forte Pauxis, que deu origem à cidade, construído por Manoel da Mota e Siqueira em 1697;

2.            A Defesa Gurjão, instalada no alto da Serra da Escama, sobre a qual já falamos;

3.            A imponente Catedral de Sant`Ana, orago da Padroeira do povo Pauxis, com sua torre sineira a marcar o ritmo de uma vida de um povo que segue seu destino sem estresse ou agitação, salvo o mês de Julho de cada ano, quando os filhos da terra a ela retornam para as merecidas homenagens à sua Protetora;

4.            A Capela do Bom Jesus, marco da história de fé da população obidense, erguida que foi como agradecimento pelo fato da cidade ser poupada da sanha dos cabanos, repelidos pelos irmãos sacerdotes Padres Antônio Manoel Sanches de Brito e Raimundo Sanches de Brito, que à frente do povo, substituíram o terço e a cruz pelas armas, dando implacável combate aos invasores.

5.            A Biblioteca Pública Municipal, antiga Cadeia, situada na Praça de Sant`Ana, fonte natural de pesquisa e estudo da juventude local;

6.            E finalmente o Quartel General Gurjão, inaugurado em 1909 com o 4.º Grupo de Artilharia de Costa com 200 homens, os quais ali permaneceram até a Revolução de 1924, quando foi transformado em 8.ª Bateria Independente de Artilharia de Costa. Após a 2.ª Guerra Mundial, modificou-se para Companhia de Infantaria, sendo em seguida instalado o Contingente do Forte de Óbidos, para zelar e guardar o material então existente e aquartelar o Tiro de Guerra, que formou várias turmas de reservistas;

7.            Em 1967 ficou sem qualquer atividade e de 1972 a 1979 foi entregue à Universidade Federal Fluminense, que lamentavelmente contribuiu para sua completa ruína, inclusive tirando-lhe parte do telhado;

8.            Antes de reduzir-se a escombros, foi totalmente recuperado na primeira administração do Governador Almir Gabriel, passando à propriedade do Município.

9.            O centenário de sua fundação comemorado neste ano de 2009 inspirou a criação da Academia, tanto assim que sua fachada estilizada ornamenta a Medalha “Cidade Presépio”, que os imortais, honorários ou grandes beneméritos ostentarão para sempre. No dizer de Ildefonso Guimarães, não foi ele um simples estabelecimento militar e sim, verdadeira Escola de Civismo a marcar a vida da cidade durante mais de meio século de atividade.

10.          Sobre esse marco da nossa história, escreveu Francisco Manoel Brandão, patrono da Cadeira n.º 25 desta Academia: “A vida desse Quartel está enredada na vida de muitos e muitos obidenses. Como voluntários ou sorteados, quantos moços pobres, cheios de ideais e justas aspirações, puderam chegar às grandes capitais do sul do país e nelas terem acesso, pelo esforço próprio, pelo estudo e perseverança, não só às escolas superiores que lhes conferiram galões e honrarias, títulos e grau de doutor, mas aos vários campos de especialização técnico-profissional onde jamais desmentiram a velha fibra dos homens PAUIXI”. É por essa razão que amamos esse emblemático prédio onde atualmente funciona O PALÁCIO DA CULTURA de Óbidos.

Não podem ser esquecidos, neste momento de exaltação ao pequeno burgo, a placidez da sua vida campestre. Quem não sabe da existência

1.            Da Vila União do Curumú, povoado que tem a felicidade de contar com uma pérola chamada Lago Curumú, onde no verão é permitida a pesca esportiva do tucunaré e a degustação do saboroso pescado ali mesmo, em suas margens de areias brancas e finas, sob as sombras da vegetação intocada.

2.            Da Vila do Flechal, a mais evoluída do interior obidense, banhada pelo lago do mesmo nome, criatório natural de todos os peixes de água doce que proliferam nos lagos amazônicos.

3.            Do Lago Mamaurú, de todos, o preferido para uma aventura de pesca, mesmo porque é o mais piscoso e também o mais próximo da zona urbana.

4.            As belezas naturais do Igarapé do Sucurijú, do Igarapé Açu, do Cipoal, do Geretepaua, do Laguinho e para aquecer os corações e gelar o corpo em suas águas cristalinas, o Curuçambá, remédio imbatível na cura de qualquer tipo de ressaca!…

O cenário sócio-cultural obidense é extremamente rico e diversificado. É relevante frisar, nesse segmento, as tradições folclóricas do

1.            Marambiré, a mais autêntica dança dos quilombolas, originária da Vila do Matá;

2.            A Pastorinha, que é uma dança de origem portuguesa, versando sobre a adoração do Menino Jesus no Presépio, cultuada em Óbidos pelo grupo liderado pela dedicada dona Maria José Ferreira, a quem prestamos nossas homenagens.

3.            As Quadrilhas, durante a quadra junina desde os tempos de Antônio Fernandes, o inesquecível “Antonico Pé de Arpão”, proprietário do Alegria Clube.

4.            Os Pássaros, que a cada junho sempre animaram as ruas de Óbidos, graças a abnegação de poucos, como dona Maria Ramos e sua indefectível Arara, o Surucuá da Costa Fronteira e a Garcinha da já citada dona Maria José Ferreira.

Seu povo festeiro e acolhedor tem encontro com suas raízes nos seguintes eventos:

  1. Em junho, o Festival do Jaraqui, dádiva que o Amazonas oferece quase de graça, até mesmo para quem mal sabe manejar uma tarrafa sobre os imensos cardumes que passeiam no remanso, no auge da piracema.
  2. Em agosto, o Festival Folclórico e o Festival do Acari – nosso famoso “Cascudo” – anima a vida da pacata gente ribeirinha.
  3. Em setembro é a vez do Lago do Curumú esbanjar sua exuberância com o Festival do Tucunaré, isto, se coisa melhor, degustada com sal e farinha, não for encontrada nas praias e tijucos a espera de quem os encontre. Para bom entendedor…
  4. Afora os festivais, Fevereiro atrai foliões de todos os cantos para o irresistível “Carnapauxis” e seus insuperáveis blocos de rua, com destaque para o Unidos do Umarizal, Unidos do Morro, Serra da Escama, Xupa Osso, Águia Negra, Bloco dos Alhos e o irreverente Bloco das Virgens, todos empenhados numa renitente batalha de maisena na Praça Centenário.
  5. Abril nos oferece o Alto da Semana Santa, encenado por grupos de teatro locais, em reverência à religiosidade inata aos pauxiaras.
  6. Em outubro comemora-se o aniversário da cidade, com grande programação festiva e intensa participação popular.
  7. Falemos, finalmente, no mês mais significativo para os obidenses – Julho – com seus Festivais de Música e sua Gincana Cultural, o mês dedicado à Padroeira Sant`Ana, com o Círio recaindo no segundo domingo e a festa invariavelmente no dia 26, proporcionando uma exuberante mostra da rica culinária local ao visitante saudoso e deslumbrado com tamanha dose de fé e contentamento. Não é demais registrar que neste 2009 tomou posse seu terceiro Bispo Prelado, Dom Frei Bernardo Bahlmann, sucessor de Dom Martinho Lammers, que por sua vez sucedeu essa extraordinária figura que foi Dom Floriano Loewenau, seu primeiro prelado, responsável pela implantação do Ginásio São José, patrono da Cadeira n.º 4 desta Academia, com quem Óbidos tem uma gigantesca dívida de gratidão.

As bandas musicais obidenses têm permanente atuação nas atividades sócio-recreativas, que mitigam o clássico isolamento em que Óbidos sempre se encontrou, apesar de contar com um aeroporto para pouso de aeronaves médias, sendo o rio a via preferida de trânsito para Santarém, Manaus ou Belém, onde se concentram suas maiores colônias. Nesse aspecto, a AABB e a ARP – Assembléia Recreativa Pauxis, que chegou a receber a orquestra de Alberto Mota no auge da fama, congregam a juventude para os famosos embalos de sábado à noite, para repetir a expressão de John Travolta.

O bem cuidado Estádio Municipal Ary Ferreira – o Arizão – é costumeiro palco de renhidas disputas entre os vários times locais, dois deles da mais vetusta tradição: o MARIANO FUTEBOL CLUBE de infinitas glórias e o PARAENSE ESPORTE CLUBE de incontáveis conquistas, sendo faces da mesma moeda, pois se completam na fraterna adversidade com que alimentam esta incoercível paixão popular que é o futebol.

Somos, os obidenses, chamados de “FIVELAS”. Quem nos explica a origem do termo é o folclorista Francisco Manoel Brandão, no seu precioso livro “Terra Pauxi”, página 58:

“Os abastados da minha terra gostavam muito de mostrar as fivelas. Anote-se ainda o dito popular “COMIGO É NA FIVELA”, traduzindo coragem, bravura, dureza de tratamento, indivíduo intransigente, “batata” ou “cem por cento”, como hoje se diz aqui pelo sul. Na minha terra era, pois, assim: em vez da “peixeira”, desatracava-se o cinturão e tome fivela. Briguei e vi muito caboclo chibante brigar desse jeito. De cacete, muchinga, tabefe, tapona brigava-se também. De cinturão, porém, era o “chic” (…). Pauxiuára, obidense ou fivela, jamais nos desconceituaram essas designações gentílicas, mesmo porque a elas se ligam não somente as razões históricas e originárias da terra, mas a razão de ser da sua gente no espírito de luta que a define…”

Se antes lutávamos empunhando cintos e fivelas, hoje o fazemos incisivamente com o único instrumento de suplício que dispomos para nos defender do solene descaso a que fomos sendo paulatinamente relegados – a denúncia pública e veemente, veiculada à velocidade da luz pela internet para quem quiser delas saber, nos sites dos obidenses presentes ou distantes, porém atentos não só às suas belezas sem fim, mas também aos seus antigos e tormentosos problemas.

A nobreza deste espaço e a alegria do momento não permitem lamúrias. Amenizemos nossas eventuais queixas com a lembrança das serenatas feitas de porta em porta, nas madrugadas de lua cheia, com o céu prenhe de estrelas, tradição vinda dos tempos em que a amada retribuía o gesto com uma pétala de rosa, suprema catarse vivida na Pracinha do “O”, logradouro aconchegante e privilegiado de onde é possível sentir no rosto a suave brisa da viração que sopra da Serra da Escama, perfumada pelo ouro dos Ipês em floração.

Assim é Óbidos, assim são os obidenses.

Nada melhor que o poeta que modestamente se assina apenas “Jr”, e que por esse motivo nos priva de declinar-lhe o nome, para dizer quem somos, onde estamos, o nosso jeito de ser, agir e pensar, nossa realidade e nossas aspirações, tudo isso da forma mais bela como só os poetas sabem dizer:

“Óbidos está aqui,

bem no coração da Amazônia:

entre lagos, serras,

rios e igarapés.

É um povo que ama a terra;

é um povo de amor e fé.

No sonho seguro,

que constrói o presente,

pensando no futuro!…”

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