Discurso de Célio Simões na Abertura da AALO

Discurso do Dr. Célio Simões de Souza, presidente da AALO na abertura da academia em 25.06.20008

 NASCE A ACADEMIA!

Célio Simões

             “Chega de imitação!”. Assim bradou Mário de Andrade na abertura da Semana de Arte Moderna de 1922, o mais significativo, ousado e marcante movimento cultural que agitou a intelectualidade brasileira em todos os tempos.

Em Abril daquele ano, a chamada “Nova Escola”, reunindo figuras de proa da poesia, do romance, do conto, das novelas, da pintura e da escultura como Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida, Cecília Meireles, Raul Bopp, Menotti Del Picchia, Clarice Lispector, Lasar Segall, Villa Lobos, Guiomar Novais, Brecheret, Di Cavalcanti, Anita Malfatti e o próprio Mário de Andrade, sob vaias e aplausos, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, sacudiram a acomodação dominante e fizeram com que a arte passasse a ser o que a política se mostrava incapaz de ser – a porta-voz das lutas sociais que explodiam em todos os setores das manifestações humanas. Para tanto, adotou o seguinte lema:

“Artista é aquele que se confunde com o povo, sentindo-o nas lutas e nos anseios, nas injustiças sociais e canseiras sem fim. Há de ele invocar o mundo onde o homem circula, auxiliando-o a viver, fixando-o à vida. Poeta ou prosador se identificará com o humano, sondará a essência múltipla do homem e da natureza, daí o básico do Modernismo – o social”.

Milton Nascimento, o bom mineiro, foi mais prático. Décadas depois simplesmente escreveu: “…o poeta tem que ir onde o povo está!”.

Daí porque não consigo disfarçar a admiração que tenho por aquele movimento, capaz de romper com as tradições e contradições vividas pela sociedade brasileira após a guerra de 1914 – 1918, em especial pelo culto exacerbado ao capitalismo cultural, que abriu um vácuo no simbolismo de Augusto dos Anjos e no período seguinte, um misto de gêneros e estilos, onde pontificaram autores do porte de Coelho Neto, Lima Barreto, Capistrano de Abreu, Joaquim Nabuco, Humberto de Campos, Sílvio Romero e o conterrâneo José Veríssimo de Matos, figura maior da crítica literária, patrono da Cadeira n.º 2 deste Sodalício.

Mas, perguntarão os senhores, o que O MODERNISMO de 1922 já tão distante tem a ver com a Academia Artística e Literária de Óbidos, que hoje solenemente se instala? Diria eu, a título de justificativa, que nele me inspirei para a materializar este Silogeu, com uma leve diferença de propósitos. Se não se inscreve entre os fins de uma Academia criar uma nova escola, tenho certeza que o movimento modernista pode nos servir de paradigma para que possamos contribuir agitando culturalmente não só Belém, na parceria que pretendemos fazer com a Academia Paraense de Letras e demais do gênero, porém a “Cidade Presépio”, ao conceber a ambiciosa meta de resgatar, preservar e divulgar seu patrimônio histórico, artístico, paisagístico e ambiental, a justificar um título que por sinal sempre tivemos: o de maior centro irradiador de cultura do Baixo Amazonas, de cidade famosa pelo que é e principalmente pelo que já foi no contexto da história do Pará, conquanto hoje meio adormecida no tempo, carente da exuberância econômica de municípios vizinhos, onde viceja a atividade mineraria, com suas vantagens, muitos cifrões e incontáveis mazelas.

Assim, neste Junho/2009, ainda no rescaldo da mais avantajada enchente do Rio Amazonas nos últimos 163 anos, vivenciamos todos nós um fato auspicioso: a instalação oficial da Academia, não por coincidência, mas de caso pensado, no ano do centenário do emblemático Quartel de Óbidos, hoje Casa da Cultura, a três quarteirões da Praça de Sant´Ana onde demora o Forte Pauxis, ponto estratégico de contemplação da Passagem Heróica, onde será erguida a “Praça do Estreito”, logradouro que ficaremos devendo à criatividade do talentoso arquiteto e confrade Carlos Antônio Barbosa da Silva, que abrilhanta a cadeira n.º 11 deste Sodalício.

Para quem não sabe, o Forte Pauxis e os canhões da Bateria Gurjão no alto da Serra da Escama, controlavam de forma implacável a passagem das embarcações no lendário estreito de Óbidos, o que justifica a origem militar da “Cidade Sentinela”, que melhor ficou aparelhada para essa missão com construção do Quartel do Exército, prédio de belíssima arquitetura, o único tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico do Estado.

E por falar no Quartel, afora seu centenário que este ano passaria praticamente imperceptível, o que tem ele a ver com a Academia? Vejamos sua trajetória:

Inaugurado em 1909 para albergar os 200 homens do 4.º Grupo de Artilharia de Costa, assim permaneceu até a Revolução de 1924, quando se transformou em 8.ª Bateria Independente de Artilharia de Costa. Ali serviu um certo Tenente Leônidas Cardoso, que viria a ser pai do ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso.

Em 1932, os sargentos da guarnição, liderados pelo exótico Coronel Pompa, prenderam todos os oficiais, aderindo à Revolução Constitucionalista de São Paulo. Na subida do Amazonas para a tomada de Manaus, ocorreu a morte infrutífera de mais de 100 soldados na desastrada batalha naval em frente à Itacoatiara, fato descrito com minúcias pelo escritor obidense Ildefonso Guimarães, no livro “OS DIAS RECURVOS”.

Encerrada a 2.ª Guerra Mundial, virou Companhia de Infantaria e mais adiante Tiro de Guerra, neste último sendo formada várias turmas de reservistas, até ser por completo desativado em 1967. Entregue à Universidade Federal Fluminense o belíssimo prédio foi impiedosamente depredado, para mais tarde ser recuperado, integrando-se ao patrimônio municipal por doação do governo federal. Em suas amplas dependências funciona atualmente a Secretaria de Cultura do Município, com diversificada biblioteca de seis mil livros, auditório e uma escola de música.

Foi a este ícone do nosso Torrão Natal que o mesmo saudoso Ildefonso Guimarães, patrono da Cadeira n.º 8 do Silogeu, conferiu o status de universidade, por transformar o caboclo bronco daquelas brenhas de meu Deus em cidadão apto para a vida. Durante a fase ativa de sua existência como unidade de combate foi o centro da vida social, quando Óbidos conheceu o apogeu, porque não havia uma única família, inclusive das cidades vizinhas como Santarém, Alenquer, Oriximiná, Juruti, Faro e Terra Santa, que nele não tivesse um parente prestando o serviço militar.

A fundação da Academia no ano de seu centenário é gratificante para nós obidenses, os nascidos no município, os que a ele se ligam por laços de afeto, assim os Honorários e Grandes Beneméritos, que dedicaram suas vidas a elevar bem alto e engrandecer o bom nome da Terra dos Pauxis. E o que dizer dos patronos? São personalidades que lá deixaram a marca de sua passagem, tornando-se responsáveis diretos pela sensibilidade que temos em relação à cultura artística e por isso mesmo jamais poderiam ser esquecidas.

O mundo nos impõe surpresas. A vontade de fundar a Academia Artística e Literária de Óbidos teve como paradigma os modernistas de 1922, mesmo sabendo que não escaparíamos das naturais censuras, recebidas, porém como contribuição a corrigir rumos nesse trabalhoso processo de criação. Não obstante, salvo quanto ao formato que tomamos emprestado para o alcance do fim maior, nosso Sodalício diverge ligeiramente de suas congêneres no objeto: descobrir Óbidos aos paraenses, ser uma vulgarizadora da memória local, com respaldo em nossa rica história e projetando nossa cultura. Não fosse assim, estaríamos repercutindo o protesto de Mário de Andrade sobre a insensatez das imitações.

Ao expor seus quadros durante a Semana da Arte Moderna, Anita Malfatti, mais tarde consagrada pela beleza de seu traço vigoroso, mereceu acerba crítica de ninguém menos que Monteiro Lobato, que num artigo marcado por pura ironia, indagou sobre sua pintura: “PARANÓIA OU MISTIFICAÇÃO?”. Defenderam-na com destemor Mário e Oswald de Andrade, que apesar do sobrenome não eram parentes, o último (Oswald) considerado a cabeça pensante do Movimento Modernista. Mas quem era Oswald de Andrade? Deixemos que Maria Augusta Fonseca em seu livro “POR QUE LER OSWALD DE ANDRADE”, Ed. Globo, p. 12, nos responda:

“Nascido na cidade de São Paulo no dia 11 de janeiro de 1890, seu nome completo era José Oswald de Sousa Andrade – e fazia questão da pronúncia Oswáld. Sua mãe, Inês Henriqueta Inglês de Sousa Andrade, nascida em Óbidos, no Pará, era filha do desembargador Marcos Inglês de Sousa e irmã do escritor e jurista Herculano (Marcos) Inglês de Sousa, autor da obra O Missionário”.

Oswald de Andrade, sobrinho de Inglês de Sousa, provavelmente não teve tempo de ser obidense, mesmo porque nunca morou lá; mas sua genialidade demonstra que a “Cidade Sentinela” tem em sua gente, filhos ou netos, seu maior patrimônio, num processo atávico que jamais se extingue, ao contrário dos tesouros do subsolo, de efêmera duração.

Dos três paraenses que chegaram à Academia Brasileira de Letras, dois são obidenses, justamente José Veríssimo e Inglês de Sousa, patrono da Cadeira n.º 17, tio de Oswald de Andrade. Ante essa realidade, vale a pergunta: a fundação da Academia deu-se apenas para lembrar o centenário do antigo Quartel, hoje Palácio da Cultura? Diria que não. Sua intenção também foi homenagear nossas fortunas culturais, os patronos cujos nomes serão mencionados nesta sessão com a reverência e o respeito merecidos.

A Academia tornou-se um imperativo face o momento que vivemos. Nos últimos 50 anos, tudo ou quase tudo na Amazônia se modificou. O fluxo vertiginoso de pessoas agravou a balbúrdia fundiária. Pacatas cidades do interior transformaram-se em fervilhantes nichos de imigrantes vindos de toda parte, atraídos pela atividade mineraria, pelo trânsito de mercadorias de duvidosa procedência, pelas terras férteis, abundantes e antes devolutas, a eles acessíveis pelos meios legais ou não, num processo destrutivo do tecido social que JOSÉ GRAZIANO DA SILVA comparou a uma “fagocitose vegetal”, com proprietários que se dizem invadidos ou posseiros que se dizem expulsos – conflitos que não raro terminam em crimes perpetrados à luz do dia, cuja autoria permanece coletiva ou incerta. Ante a iminência do caos, para o qual não se vislumbra solução salvo em futuro remotíssimo, a Academia reserva-se o direito de bater-se por um bem precioso que temos, para colocá-lo a salvo da audácia incontrolável desses aventureiros: a nossa identidade cultural, revelando os valores do passado àqueles capazes de construir um novo futuro!

Somos quase todos originários daquela região tão bem descrita por Ademar Ayres do Amaral em seu recém lançado livro “Catalinas e Casarões”. Quem tem o privilégio de ler esse verdadeiro tratado sobre as alegrias, as angústias, os costumes e o cotidiano das várzeas amazônicas, sejam elas as da Costa Fronteira, do Lago Grande ou do seu inefável Paraná de Dona Rosa, de imediato lembra EUCLIDES DA CUNHA, gênio da interpretação brasileira que há mais de cem anos disse de forma insuperável sobre esse compacto e heterogêneo emaranhado tropical, onde a natureza gigantesca esmaga o homem frágil, disperso e abandonado:

“…de seis em seis meses, cada enchente que passa é uma esponja molhada sobre o desenho mal feito; apaga, modifica ou transforma os traços mais salientes e firmes, como se no quadro de suas planuras desmedidas andasse o pincel irriquieto de um sobre-humano artista incontestável…”

Ao me arvorar à difícil empreitada de dar corpo a esta Academia, com a inestimável ajuda dos meus ilustres pares, considero parcialmente quitado o débito da minha geração para com a Cidade Presépio. Estamos todos fazendo a nossa parte. A exemplo da Serra da Escama, do Lago Pauxis, do Mamaurú, do telúrico Curumú e do místico Curuçambá, este Sodalício torna-se bem intangível dos obidenses e para tanto contará com o apoio do executivo municipal, porque o fortalecimento das entidades culturais é dever a ele imposto pelo art. 177 da Lei Orgânica do Município.

Ao encerrar, permito-me uma digressão. A Academia é um fato histórico nos mais de 300 anos de existência de Óbidos. Ela se ocupará, no devido tempo, de enfatizar a atuação dos obidenses natos ou adotivos que contribuíram para tornar único aquele remoto pedaço da Amazônia. Essa vocação e esse desiderato estavam expressos desde o início. Indagado sobre a fórmula do sucesso, Kennedy respondeu que não sabia, porém conhecia muito bem a do fracasso: tentar agradar a todos ao mesmo tempo. O julgamento que para nós importa é exclusivamente o do nosso povo, pois este sim se transforma no definitivo juízo, o único que realmente vale para toda a posteridade humana e para a história. E tem mais. Tudo o que fizermos doravante terá sempre uma forte pitada de exaltação da Terra dos Pauxis, porque modéstia nenhuma é de ferro. Penso que só por isso já merecemos os parabéns.

Muito obrigado!

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