CAMISA 12

Jorge Ary Ferreira

 O ano era 1993.

Há seis anos Óbidos não havia campeonato de futebol. A Liga retirara o muro do antigo General Rego Barros com o intuito de ampliá-lo, mas não conseguiu recursos. A partir daí a Prefeitura Municipal trabalhou no sentido de devolver a melhor alegria da população, caprichando na construção do novo estádio de futebol – o Arizão. Valeu a pena esperar!

Naquela época o futebol era patrocinado pelo Dr. Felinto Marinho que, com recursos próprios, mantinha um grupo de jogadores devidamente treinados e promovia excursões pelas comunidades interioranas e Municípios vizinhos. Tinha, portanto, um grupo de atletas do mais alto nível possível que representava a seleção obidense e, logicamente, formaria o escrete do Paraense Futebol Clube para aquele ano – o primeiro do novo estádio.

Faziam parte desse seleto grupo: Antonio Camilo, Nilton, Maurinho, Hugo, Bozó, Bimbim, Zé Mário, Gró, Gico, Ronaldinho, Pingüim e Jr. Zuzê, além de outros. Todos, jogadores maduros e experientes, comandados por uma diretoria extremamente competente da qual também faziam parte os saudosos Renato Martins e próprio Dr. Fé.

O Mariano amargava um período infeliz. Despejado de sua sede – uma casa alugada na Praça de Sant’Anna, não tinha sequer um jogo de camisa para entrar em campo.

Como a população estava sedenta de disputas saudáveis entre Mariano X Paraense (que eu costumo chamar de clássico “Mapará”), resolvemos dar a volta por cima e fazer daquele campeonato um dos melhores. Formamos, para isso, a diretoria do Mariano Futebol Clube para o biênio 9394. Reunimos algumas feras de corações azulados, liderados pelos amigos Paúca, Reinaldo Andrade, Mario Jorge, Pedrão, Afonso, e outros fanáticos como eu. Tivemos, é lógico, o apoio da apaixonada torcida.

E os atletas? O que fazer para formar um grupo? Contávamos somente com um de renome: Amarildo. Ele realmente era um grande jogador, mas sozinho seria impossível. Onde arrumaríamos mais 10?

Para solucionar a questão, o Professor Mario Jorge nos apresentou um grupo de jovens que formava o time da sétima séria do colégio Felipe Patroni. Segundo o Professor, eles eram “bons de bola”. Assim, surgiram os novos jogadores do Mariano: Danica, Cico, Valdir, Klaudê, Hugo, Amarildo, Farofa, Eusébio, Curtinho, Nego, Edvaldo, Cabinho, Maráca, Paulinho (Farinheiro), Pingo, Bolão, além de outros dispostos a ajudar. A maioria tinha idade entre 14 e 17 anos e nenhuma participação em qualquer campeonato. Para falar com franqueza, quando vi o Danica pela primeira vez em baixo de uma trave jamais poderia imaginar que naquele “curumim” de 14 anos estava escondido o grande goleiro que tem sido. Até hoje ele continua nos presenteando com grandes defesas.

Começamos uma série de amistosos para angariar fundos para o clube. Trouxemos, inicialmente, o São Raimundo de Santarém. O resultado não poderia ser diferente: 4X1 para eles, e uma atuação primorosa de Valdir, Danica e Amarildo que evitaram um vexame ainda maior.

Não podíamos desistir, pois sem recursos não chegaríamos a lugar nenhum. Partimos, então, para o inevitável. Visitamos o Dr. Fé para convencê-lo a aceitar um amistoso histórico – o primeiro clássico Mariano X Paraense no estádio novo. Estaríamos diante da melhor renda dos últimos tempos.

Quem venceria? O frio no estomago era constante.

Dr. Fé era um grande amigo, mas quando o assunto era futebol o cara era cruel. Ouvimos a seguinte resposta:

– Topamos, mas é “bico seco”.

– Doutor, nós não podemos aceitar – argumentei. Precisamos dividir a renda porque a nossa situação financeira é difícil e nosso objetivo é reestruturar o Mariano.

– Não! Bico seco e não se fala mais nisso – retrucou.

– Não dá, decidimos. Vamos perder a chance de capitalizar os dois clubes, pois esse jogo daria uma excelente renda.

– Está bem, respondeu Dr. Fé. 70% são do vencedor, 30% do perdedor.

– 50% para um e 50% para o outro, Doutor. Insistimos.

A negociação durou uma longa semana. Depois de muita conversa conseguimos convencê-lo, apenas porque a nossa derrota era o mais provável. 50% da renda pra cada e um Troféu (que nunca foi entregue) para o vencedor.

Durante a semana que antecedeu a peleja eu quase não dormi. A preocupação com uma possível derrota vergonhosa era constante. Isso, sem falar nas dívidas que a todo instante aumentavam – era uma chuteira que rasgava; jogador com pé além da conta e por ai vai. Pra completar, na véspera do jogo ainda encontrei o saudoso amigo Antonio Cabanela que reclamava de tudo: da distância que o estádio ficava de sua residência; da falta de sombra para trabalhar – o sol era escaldante (ele estava acostumado a descansar à sombra do quartel) e, o que era pior, reclamava a necessidade de comprar mais dez pacotes de cal. Dizia que a grama exigia mais produto para delimitar o campo (na areia do estádio antigo apenas dois eram suficientes).Tivemos que arcar também com essa despesa extra.

Mas no futebol nem sempre a lógica prevalece. Eis que chega o grande dia – 21 de março de 1993 – o primeiro Mariano X Paraense do estádio novo.

Acordei com uma tremenda dor de cabeça – fruto da ressaca de farra da noite anterior no Bar do Zezito. Assim mesmo corri para a ARP, onde seria servido o almoço. No mesmo local, faríamos a preleção.

Na esquina da praça encontrei meu parceiro Mario Jorge – o “Magato”, nosso preparador físico que, saindo da Missa, foi logo dizendo:

– Olha parceiro, já me peguei com diversos dos nossos ali (apontou para a Igreja Matriz).

– Como assim “meu Gateiro”? Respondi.

– Rezei (porra). Pedi para o teu pai, para finado Barrinho, finado Calango, finado Bicho, finado Negão, Macaco, Zé Hamilton, pro Có. Pedi para todos que lembrei… Pedi (né?) para darem uma força – não podemos perder esse jogo!… E vou logo te dizendo: essa está no papo. Pode botar fé que nós vamos ganhar, afirmou. – Esses caboclos vão nos ajudar!

Aquelas palavras do Magato encheram-me de esperanças e eu já nem pensava na renda. O que eu queria mesmo era ganhar.

E assim fomos nós – com fé e coragem. Passamos momentos de tensão somados à dificuldade para causar melhor impressão ao grupo. Sabíamos que só assim conseguiríamos unir e motivar aqueles garotos. E não deu outra – o time foi pra campo, determinado.

Durante o jogo o Paraense tomou todas as iniciativas e o Mariano limitou-se a explorar os contra-ataques. Aos trinta e cinco do primeiro tempo, numa indecisão da zaga do Paraense, o Paulinho Farinheiro – 17 anos e meia-esquerda habilidoso, escreveu seu nome na história marcando o primeiro gol de um clássico no novo estádio.  Mariano 1 X 0 Paraense.

O segundo tempo começou com o Paraense partindo para cima e a zaga do Mariano “arrepiando”. Poucas vezes vi um time jogar com tanta determinação e raça como naquela tarde de março de 1993. Valdir e Klaudê sobrando no jogo. Amarildo comandava o meio de campo. Na trave, Danica pegava tudo, mas no ataque Cabinho pouco podia fazer no meio da zaga do Paraense, formada por Nilton, Hugo, Bozó e Bimbim.

E foi também assim que terminou o segundo tempo – o Paraense atacando e o Mariano dando sangue na defesa. No momento do apito final do árbitro Narciso Araújo, o placar do Estádio Ary Ferreira estampava: Mariano1 X 0 Paraense.

Somente na hora de repartirmos a renda foi que soubemos onde estava a nossa derrota, pois tivemos que ouvir o “xaveco” do Dr. Fé:

– Vocês são frouxos. A renda deveria ser toda do Mariano…

Minha indignação trouxe a resposta, na bucha:

– É verdade: Somos frouxos, “mas a Paca nós comemos”.

E até hoje eu me pergunto: Quem ouviu o “Magato” e jogou com a nossa Camisa 12?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s