Meu ilustre vizinho

Célio Simões

Recebi o convite e após ler o conteúdo, a memória viajou no tempo. Achei por bem registrar o que consegui lembrar, a guisa de homenagem não só ao aniversariante ilustre, porém aos seus familiares, que por lógico e esperado encontrarei no dia do auspicioso evento.

Eu sabia quase de forma decorada a harmoniosa sequência das árvores cujos frutos se ofereciam dadivosos aos que por ali transitavam. Laranja da terra, pitomba, jenipapo, manga, mamão, banana e quase ao fim do vasto quintal separado da rua por cerca de pau-a-pique, pitangas vermelhas à altura da mão de um moleque da minha idade. Era irresistível deixar de colher essas frutas, que os proprietários do casarão sequer se davam ao trabalho de impedir, tão abundantes que eram. A única hora em que não nos arriscávamos era quando o patriarca se demorava de pé lá na esquina, observando e recebendo o cumprimento dos passantes, escorado num arremedo de poste, quase um mourão, mandado fincar para evitar que o carro-de-boi do Manuel Português danificasse sua parede de alvenaria. O privilégio era nosso de sermos vizinhos daquela gente. Falo de seu Peróca, dona Neuza e do aprazível local que moravam, cheio de animais domésticos e intenso arvoredo, praticamente um sítio na área urbana. Pessoas decentes, eram ligadas a nós por laços de compadrio e minha mãe tirava uma lasquinha, solicitando à matriarca que guardasse em sua geladeira alguma putáua de carne provisionada para consumo futuro.

Até que um dia foi aberto um estreito portão de maneira, cujo vão não ultrapassava duas tábuas de sucupira, para a alegria da bicharada. Por lá saíam perus, patos, galinhas, galos e pintos para ciscar o volumoso capim da Rua Dr. Machado, a essa época despida de qualquer pavimentação, onde vicejavam flores campestres, o execrável “carerú de soldado”, capim bolota e mato alto. Mas por lá também eu vi certo dia sair um jovem brancão e forte exibindo performance de atleta, rumo à residência do lado oposto da mesma rua, onde morava dona Dadá. Fiquei intrigado porque a provecta senhora certamente não estaria interessada naquela inesperada exibição de cultura física até que lá de dentro surgiu uma bonita jovem, os dois se encontraram ainda na calçada e penso que a partir de então teve início (se é que não foi antes) um romance duradouro até hoje intocado. Outros encontros lá mesmo naquela calçada estreita se sucederam, porém de forma intermitente. Vim depois saber que meu vizinho branco e forte estudava em Santarém, salvo engano no festejado Colégio Dom Amando, de onde sem solução de continuidade alternou o uniforme de estudante com a farda do Tiro de Guerra.

Um dia Hélio e Ermita casaram. Graduado pela Escola de Agronomia da Amazônia, hoje Faculdade de Ciências Agrárias do Pará, meus pais logo nos orientaram sobre o tratamento que a ele deveríamos dar – Dr. Hélio. E para ela, que sempre nos dispensou grande carinho, ficou “tia” Ermita. Pensando bem, esse modo de chamar é sintomático e revelador da estima que muitos nos reservam. Cito um exemplo prosaico. Além dos muitos sobrinhos que tenho onde o “tio” é lugar comum (felizmente poucos adotam forma mais impessoal), alguns da nova geração, arrimados apenas no mútuo apreço assim também me distinguem. O jovem intelectual Luiz Felipe, orgulho de Luiz e Izaura Igreja, com quem mantenho fraterna amizade, é um deles. Sorte minha que assim acrescento mais um com elevado nível de sociabilidade ao meu extenso rol, mesmo que não consangüíneo ou por afinidade. Pra mim, é como se fosse.

Nosso Estado estava em ebulição com a política partidária, polarizada entre o PSD do General Barata (que agora desejam ressuscitar) e a Coligação Democrática Paraense, tendo à frente o PSP do General Assunção e tornara-se imperativo encontrar uma nova liderança para ocupar a prefeitura de Óbidos, pessoa eqüidistante de compromissos escusos e com a isenção demonstrada, cada qual a seu tempo, pelo Dr. Raymundo Chaves e Raimundo Lucas de Menezes. Lembro de uma frase famosa, cuja autoria me escapa, que reza acertadamente: “Não sei por que tanta gente opta pelo crime, se há várias maneiras legalizadas de ser desonesto”. Ainda consigo me indignar com mandatários de municípios pobres que ocupam o cargo com o exclusivo intuito de assaltar o erário, quer simplesmente metendo dinheiro vivo no bolso, na cueca ou na meia ou de forma dissimulada, porém não menos acintosa, armando esquemas visando enriquecimento ilícito e deixando ao desamparo quem necessita da merenda escolar, de assistência à saúde e de boas escolas. Em busca dessa personalidade isenta de vícios, os líderes locais conseguiram dobrar a natural resistência da família e do próprio candidato e o Dr. Hélio passou a comandar o executivo obidense. Durante a campanha, tenho presente o jargão bolado por Saladino de Brito, seu maior cabo eleitoral, propalado pelo “boca de ferro” desde a rua da beira até o Juncal:

Vote certinho

no Hélio Marinho.

Vote sem medo,

no Hélio Azevedo.

Rima perfeita, toante e soante, elegeu-se com folga. A essa época éramos vizinhos na Rua Bacuri, pois nosso sobrado estava em construção e seu Peróca nos alugou o casarão confronte às ruínas do chalé do Machadinho (onde conheci mais de perto dois excepcionais amigos, Dino Priante e Carlos Antônio Silva). Era sinal claro de sua presença em casa para o merecido descanso o Jipe Willys da prefeitura (da 2.ª Guerra Mundial) estacionado rente a calçada. O jovem alcaide logo mostrou a que veio. Atilado, fez produtiva parceria com Dom Floriano, o religioso com edificante espírito empreendedor, que demandava o interior construindo capelas e fazendo, como ele mesmo dizia, seus famosos “descimentos” nas comunidades das várzeas, onde orientava, casava, crismava e batizava, sem abrir mão da tradicional indumentária franciscana, mesmo sob o forte verão tropical.  Bispo e Prefeito lideraram a construção, praticamente no braço, da pista do aeroporto, de estradas vicinais, das operações “tapa buracos” nas ruas do subúrbio quase intransitáveis. Conceberam já naquela época uma campanha cujos folders conclamavam o povo a evitar as queimadas como método de limpeza dos campos de pastagens, enfim, com nenhuma ambição pessoal foi administrada uma prefeitura com parcos recursos materiais.

Salvo melhor juízo, outra grande parceria urdida pelo jovem prefeito foi com o Coronel da Aeronáutica João Camarão Telles Ribeiro. Esse militar, que mais tarde galgou o maior posto da carreira – Tenente Brigadeiro do Ar – e serviu na Amazônia por mais de 10 anos, inicialmente chefiando o Estado-Maior da 1ª Zona Aérea e depois se tornando comandante do 1.º Comando Aéreo Regional, marcou época em Óbidos. Era um desbravador nato, um homem dotado de imensa dedicação ao trato das questões sociais, reveladora de sua formação humanista, permanentemente preocupado com a proteção das fronteiras, com a defesa e o desenvolvimento territorial e os povos da floresta. Em decorrência da assistência às comunidades indígenas fruto das ações integradas entre a FAB, a FUNAI (antigo SPI) e as missões religiosas (a presença dos missionários entre os índios, tão injustamente criticada, representava e ainda representa a alternativa mais segura de sua aculturação, dando-lhes padrões mais elevados de saúde, educação e melhorando suas sofríveis condições de vida), a cidade de Óbidos figurou como uma espécie de entreposto aos doentes que eram transportados para Belém nos aviões da FAB. Penso que o entusiasmo daquele militar contagiou os prefeitos da Calha Norte do Rio Amazonas, pois me lembro de ter ouvido por horas a fio, para meu deleite, retalhos de conversas do prefeito com os adultos sobre as viagens para a aldeia dos Tiriós e o fascínio do sobrevôo sobre os Campos Gerais até a fronteira com o Suriname, nos contrafortes da Serra de Tumucumaque.

Poucas pessoas daquele remoto rincão conheciam tão bem suas peculiaridades como o nosso prefeito, mercê de suas viagens para todos os quadrantes do Município. Até que um dia a casa caiu. “Casa” é força de expressão, pois o que caiu mesmo foi o avião monomotor em que ele viajava, obrigado a pousar num roçado ainda por destocar, no aprazível sítio do velho “Chicó”. Por sorte sobreviveu e o socorro só foi conseguido após horas de cavalgada felizmente sem maiores conseqüências para piloto e passageiro, todos ilesos. Outro momento marcante foi vê-lo equilibrando-se sobre o famigerado Jipe da 2.ª Guerra Mundial, na esquina da Dr. Machado com a Justo Chermont, brandindo a miniatura do troféu Jules Rimet, fazendo inflamado discurso no dia em que o Brasil sagrou-se campeão mundial de futebol na Suécia, com Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Orlando, Nilton Santos, Didi, Zito, Garrincha, Vavá, Pelé e Zagalo. O povão delirava pela extraordinária façanha, espécie de desagravo ao vexame ocorrido no Maracanã em 1950 frente ao Uruguai. Mas passada a euforia da histórica conquista, a vida seguiu seu rumo. O Município de Óbidos, agora já de posse de um bem elaborado pacote de melhorias de serviços públicos, vivia a expectativa de conseguir substancial ajuda financeira do Governo Federal, com projeto já aprovado e em vias de ser encaminhado, quando veio a notícia arrasadora da renúncia de Jânio Quadros da Presidência da República, inviabilizando o sonho de dotar o povo dos serviços que necessitava.

Os dias foram escoando com a lerdeza do ritmo interiorano. Veio outro momento de grande felicidade para a família do prefeito – o primeiro aniversário do Júnior – para o qual amigos e parentes foram convidados. Festa de criança em certo sentido assemelha-se a de idosos. Naquela quem se diverte são os pais. Nesta, filhos, genros, noras, netos e os amigos. Por toda a casa respirava-se a euforia vivida pelo casal e o “Parabéns Pra Você” em uníssono foi acompanhado com as palmas que tradicionalmente ditam o ritmo dessa tradicional cantoria. Aplausos para o menino, cujos passos hesitantes iam em busca dos balões coloridos, rindo de graça sem saber direito o que estava ocorrendo. Eu já ingressara na adolescência, essa magnífica fase da vida e lembro bem desses detalhes. Diferente de hoje, onde máquinas fotográficas com recursos técnicos fantásticos são ofertadas até em feiras, dispúnhamos tão somente do profissionalismo do velho Frederico, do Nato e tempos depois, do João Viana. Mas mesmo não tendo visto nenhum deles por lá, numa bela tarde, quando me encontrava sentado no batente da porta, o ilustre vizinho veio andando na minha direção, deu uma espiada para dentro de casa através da porta entreaberta, indagando:

– Teus pais?

– Só minha mãe. Papai foi pra fazenda.

– Entrega isso pra ela, disse, passando-me um pequeno envelope.

No que ele saiu fui direto à máquina de costura onde dona Lady confeccionava suas encomendas de vestidos infantis e entreguei o dito envelope, que foi aberto na hora. Nele, a foto do primogênito como estava no dia de seu natalício, vestido com terninho branco, calça curta, gravata borboleta e cabelo cortado com máquina zero nas laterais ou colocado no apontador de lápis, com a seguinte dedicatória: “Aos amigos Lady e Francisco, com um abraço do Júnior. 5/12/62”.

A gente nasce, cresce, fica noivo, casa, tem filhos, olha pro lado e de repente passaram 60, 70 ou 80 anos. A juventude atual nem queima mais essas etapas, pois ainda solteiros, vivem como se casados fossem, isto do mais anônimo plebeu aos futuros reis da Inglaterra. Quem tem alguma coisa a ver com isso? A rigor, ninguém mesmo, porém a conquista com plena lucidez e desenvoltura da marca dos oitenta, somente é para quem faz jús. Ao contrário das promoções necessariamente alternadas na magistratura, em que o juiz ascende por merecimento ouantiguidade, na vida real essa regra não vale. Pais, avôs e bisavôs serão invariavelmente premiados com esses critérios de forma cumulativa, na exata medida da estima dos que lhe são caros, haja vista que a antiguidade é pressuposto do merecimento. Oitenta anos é a prova provada do que afirmo. Em abono a essa tese, arrisco dizer que aquela criança de terninho branco e gravata borboleta, com seus irmãos, mãe, filhos e netos farão as honras da casa, com aquela mesma alegria que testemunhei no primeiro ano de vida do Júnior, na festa das oito décadas de proveitosa existência do vizinho e prefeito que um dia tivemos a ventura de eleger e que pode ainda hoje subir a Bacuri de cabeça erguida pela honradez com que ocupou o cargo.

Faz tempo, a Prefeitura não precisa mais de seus serviços. Acho mesmo que ele se desencantou da política e dos políticos, estes em especial, com sua obscura conduta do toma lá, dá cá. O mesmo não se pode afirmar da família constituinte e constituída, da legião de amigos, dos parentes e de seus confrades da Academia Literária de Óbidos, cujos quadros ele abrilhanta com sua ampla e diversificada cultura. Falta apenas aduzir que o Dr. Hélio Marinho de Azevedo, a quem dedico essas linhas como homenagem pelos seus oitenta anos, há muito tempo já substituiu o Jipe da 2.ª Guerra por uma robusta D-20 que é vista em sua garagem, isto quando ele resolve voltar de sua fazenda para um período de tormento no trânsito de Belém. Como agrônomo, tendo outro como herdeiro profissional, afeito às sutilezas telúricas e sem o acolhedor Paturi por perto (refúgio invariável de dona Dica Simões quando fugia dos fogos das festas da Padroeira) seria injusto esperar dele, nessa fase da vida, outra atitude. Como li certa vez, de novo sem lembrar o autor “só existe um prazer melhor do que fazer um novo amigo. É encontrar um velho amigo”. O seu decanato, prezado amigo, nos causa justificado júbilo. Por isso estaremos juntos no dia 30 deste chuvoso Abril para um amplo, fraterno, merecido e caloroso abraço.

(*) Amigo e ex-vizinho do homenageado.

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