Peregrinação de obidenses

Julho é um período mais que especial para os obidenses de todo o Brasil, que se achegam para um convívio, época das festas religiosas em homenagem à Padroeira Sant’Ana, portanto um momento em que amigos que moram fora, servem-se para os encontros, trocas de ideias, relatos do que fazem presentemente, visitas a parentes, amigos, locais especiais e, também, a gustação da culinária pauxi, que se concentra principalmente nos peixes regionais e nas formas especiais de prepará-los. 

É muito interessante para quem reside distante, quando encontra um conterrâneo, comentar da aspiração de viajar para a querência querida, alimentação, festas dançantes e tanto mais da tradição da terra, neste período que já se tornou especial para a gente autóctone. Assim aquela viagem aérea, geralmente até Santarém, e de lá tomar um barco a motor ou lanchas velozes e aproximar-se num final de tarde à angustura do maior rio do mundo, o Amazonas, saudado pela paisagem colorida do arrebol, do volejar dos seres alados, trançando graciosamente no céu aquele quadro receptivo e feericamente luminoso como a ribalta do maravilhoso palco acolhedor. Neste deslumbramento, ouvir o Angelus misterioso e o repicar do blém, blém, blém, do sino da catedral centenária e imponente da Mãe da Virgem Maria. Oh! sublimidade indescritível, em que o sonho do filho pródigo ouve no ar aquela pergunta que tanto identificou Ernest Hemingway, adequando-a: “Por quem os sinos badalam?”, e a resposta de pronto se nos apresenta à imaginação: “Pelos que chegam e por nós, que, distantes, não conseguimos chegar ao convívio da Terra Mãe”. Aportando, superada a imagem do Paturi, ver no porto, simpáticos, os rostos de conterrâneos, conhecidos ou não, mas curiosos, apertando-se sorridentes para dar boas- vindas. É preciso ter o privilégio que consta de um DNA próprio para explicar ou compreender estas situações. 

Assim é, o algo exclusivo que sente o obidense, tão marcante, que aqueles que não puderam ir, ficam antenados nas notícias principalmente através dos sites Chupaosso, Folhadeóbidos e tantos mais, que relatam detalhes da vida na cidade e essas singularidades para as quais fomos eleitos e da qual somos os protagonistas. 

Óbidos, mesmo não sendo a mais importante e desenvolvida das cidades da região, é ela que lidera esses momentos da coincidência religiosa ou profana, como o Carnapauxis, que já fazem uma marca na vida de tanta gente. A movimentação de barcos trazendo os romeiros, visitantes e sobretudo obidenses, é muito intensa e apenas as festividades de Santo Antonio, em Alenquer, têm uma proximidade de frequentadores, pois, nem mesmo Santarém, uma cidade de maior porte, bem como as demais, tem lustre tão expressivo. E a notícia falada e escrita que divulga esta situação, dá mais realce ainda e acendra o nosso justo e pretensioso bairrismo. 

É oportuno que se mencione um fenômeno semelhante, buscando uma comparação, ainda que com dimensão maior, cerca de 13 milhões de pessoas, que é a peregrinação dos muçulmanos a Meca e visita ao centro religioso de Caaba, quando lá existe uma obrigação de, pelo menos uma vez por ano, os adeptos de Maomé visitarem a cidade sagrada, e poderem afirmar oracionalmente o “Eis-me aqui Senhor”. 

Óbidos vem criando as suas marcas especiais, desde quando, para defesa da região, foi criado o Forte de Santo Antonio dos Pauxis de Óbidos, em 1697, ou quando em 1755 tornou-se município, ou das revoluções em que foi palco de combates e das lutas da cabanagem. Os ciclos econômicos que floresceram nas indústrias de beneficiamento de castanha-do-pará e juta, fazendo que o porto fosse o local de embarque/desembarque para receber matérias-primas, que transformadas ou beneficiadas, eram negociadas para o exterior e ofereciam uma circulação de divisas e o progresso compatível.

Também a Academia Artística e Literária de Óbidos – AALO, um silogeu composto de gente distinguida pela cultura, estro, arte e bons predicados, faz seu encontro anual, usando para posse de membros ou galardeamento de homenageados, esta ocasião, numa singela cópia do estilo da Academia Brasileira de Letras, que teve entre seus fundados dois obidenses, Inglês de Sousa e José Veríssimo. Desta forma, registra-se a intenção de estimular o surgimento dos continuadores de nossos ancestrais, que nos fizeram herdeiros de importante legado e ufanismo.

Sim, agora é que, cada um dos que chegaram para as solenidades e festas julianas, juntamente com os que distante se transportam na imaginação para a Catedral de Sant’Ana, dizermos nós, também, “Eis-nos aqui, Senhora!”.

Belém-Pa., 12 de julho de 2011.

Fernando Sousa.

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