DISCURSO PROFERIDO PELO PRESIDENTE DA AALO NA SESSÃO SOLENE DO DIA 25.07.2011*

Célio Simões

Exmo. Sr. Jaime Barbosa da Silva, na pessoa de quem saúdo todas as ilustres autoridades integrantes da mesa. Demais personalidades que nos honram com suas presenças. Senhores e senhoras:

Cabe-me um breve pronunciamento antes de encerrar esta memorável sessão solene, onde a Academia recebe de braços abertos uma das expressões intelectuais da Amazônia, o sociólogo Fernando Canto, onde pessoas e instituições foram com justiça homenageadas, pela luta que empreenderam e empreendem em favor da cultura de nosso Município.

No trabalho isolado de abnegados de saudosa memória como os professores José Tostes, Marcos Nunes, Maria Madalena Printes, Córa Simões, Glória Correa Pinto, Júlia Mousinho, Cezarina Aquino e Manduca Valente apenas para citar os que já se foram, ou no labor coletivo dos mestres que abrilhantam os Colégios São José e São Francisco, ícones dos educandários obidenses, o que sempre se testemunhou foi a extrema preocupação com o aprimoramento moral e intelectual dos alunos.

Esse aprimoramento exige hoje dos educadores comprometidos com a vocação que abraçaram, extremo cuidado para não se perder, ante as bruscas alterações de rumo que as autoridades educacionais impõem ao povo brasileiro, como sempre o último a saber ou entender os arranjos de bastidores, cujas devastadoras conseqüências não são sentidas pelos que vivem no inalcançável plano superior onde são tomadas tais decisões.

Em 1.º de Janeiro de 2009 começou na prática a vigorar o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, abrangendo basicamente três aspectos: a) a acentuação das palavras; b) o emprego do hifem; c) e as consoantes mudas. Frente a tais alterações e sem intenção de trocadilho, a sociedade é que restou muda, impotente para exteriorizar seu protesto pela inovação que veio à revelia de quem já se imaginava familiarizado com os sutis meandros da linguagem escrita.

É que a novidade joga por terra boa parte do que se aprendeu a peso de muito estudo e palmatória. E embora tenha atingido apenas cerca de 0,5% das palavras mais utilizadas no Brasil teve em Portugal proporção maior, de 2%, daí ser fácil entender a resistência que provocou na terra de Camões e Saramago. Soa contraditório que o tal acordo, que deveria em tese unificar a ortografia em todos os países de fala portuguesa, teve como conseqüência imediata, para desespero de seus idealizadores, oficializar gritantes diferenças entre esses mesmos povos e países.

Tentando corrigir rumos, os ditos especialistas brasileiros fizeram uma ressalva de duvidosa eficácia ao permitir desde 01.01.2009 a chamada opção pela grafia antiga e aquela introduzida pelo acordo, considerando que somente a partir de 01.01.2013 é que as aludidas alterações tornar-se-ão obrigatórias. Esqueceram, porém, de combinar tal prática com livros, jornais e jornalistas, revistas, tablóides, sites, dicionários e outras publicações veiculando o pensamento de cronistas e escritores que já circulam com a nova ortografia e o que é mais grave, com os concursos públicos, cada dia mais rigorosos, que também já a adotaram, para infelicidade daqueles que aprenderam pelas regras antigas e ainda não assimilaram as novas. Neste momento de grande júbilo para a Academia, por certo não são cabíveis reflexões profundas sobre a desastrada iniciativa, porém a indagação que diuturnamente faço é a seguinte: Assistimos a sobrevivência ou a falência da nossa linguagem?

A pertinência desta pergunta me tem inquietado de algum tempo e chegou ao seu ponto mais agudo com a postergação das normas de concordância gramatical, no momento em que o Ministério da Educação chancelou a compra de 485 mil exemplares do livro “POR UMA VIDA MELHOR” (sem que se tenha idéia de quem passou a viver melhor…) da coleção ‘VIVER, APRENDER”, tornando sua adoção obrigatória e incutindo o vírus da ignorância nos alunos da rede pública do Distrito Federal. Ao contrário do que afirmam os pseudo-educadores, falar e escrever corretamente não configura “preconceito lingüístico”.

Para os que dedicam seu precioso tempo aos bancos escolares – alunos, professores ou diretores – não seria hoje e aqui, quando rendemos homenagens a duas escolas que formaram parte dos membros da Academia, ambas de centenária tradição no preparo intelectual de ilustres filhos da terra, que eu endossaria essa turva proposta pedagógica, despida de bom senso, certamente movida por interesses insondáveis, na medida em que a própria autora, com endosso do MEC, afirma como correta expressões como “nós vai”, “nós pega o peixe” e de maneira inconseqüente se exime de qualquer responsabilidade pela previsível reprovação dos alunos nos certames públicos e nos vestibulares, que sempre adotarão, apesar do obscurantismo governamental, a forma correta de escrever e falar a língua pátria.

O esperado, neste momento em que o Silogeu preenche sua última cadeira com a eleição do ilustre sociólogo Fernando Canto para a Cadeira n.º 40, seria evitar este desabafo, para o qual desde logo apresento minhas escusas, mas como Presidente de um Instituto Cultural e Diretor Jurídico de um dos maiores sistemas de ensino do País, não consigo aceitar o desastre ultimado com a conivência do Ministério da Educação, logo ele, que deveria atuar como verdadeiro guardião da boa qualidade do ensino no País, mas prefere convalidar a sandice, desprezando a rica produção de verdadeiros escultores da arte literária como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Coelho Neto, Guimarães Rosa, José Veríssimo, Ildefonso Guimarães, Francisco Manoel Brandão e Oswald de Andrade, este, uma das figuras de proa que encantaram o Brasil com o movimento modernista de 1922 em São Paulo, personalidade ímpar, genial, exuberante e indômita, filho da obidense Inês Henriqueta Inglês de Sousa Andrade, sobrinho de Herculano Marcos Inglês de Sousa, verdadeiro monumento das letras nacionais, inclusive como jurista de inquestionável talento.

Não atentou a digna autora do livro “POR UMA VIDA MELHOR” que a originalidade na linguagem não significa pedantismo. Salvo melhor juízo e com o devido respeito, faltou-lhe clarividência para perceber que a palavra falada é de certa forma incompleta. A mímica, os objetos à vista, as situações que falam por si, tornam a fala econômica, ficando a frase muitas vezes pelo meio, sem que isto comprometa o entendimento ou reclame o emprego de um linguajar tosco ou errôneo em prol de sua maior praticidade.

Por seu turno, a palavra escrita sempre procurou modelos. Não pode ser descaracterizada ou ultrajada. O mundo moderno é muito rápido, tendente a eliminar telegramas e cartas em favor dos e-mails que viajam em tempo real, mas nem por isso essa velocidade admite a falta do legítimo ornamento da comunicação, que é o escrever de modo a prestigiar as normas da boa linguagem. Um rico e diversificado vocabulário torna agradável a leitura, a não ser que tenhamos preocupações falsamente estéticas. Arrisco dizer em favor da mais absoluta clareza, que em qualquer texto a redação deve ser simples, objetiva, porém articulada e escorreita.

Esse rápido esboço, que não é de todo pessimista, deixa antever que se nada for feito, nossos futuros professores, egressos de escolas aonde o “nós vai” é a forma “não preconceituosa” de falar, causarão maior dano ao vernáculo do que a inflação causa à moeda, por ser idêntico o efeito: a dilapidação do seu valor. A prosperar esse despautério, comparto em sua inteireza a afirmação de Bruno Mazzeo, ao ironicamente aludir num programa de TV que em vez de mestres, pedagogos, professores e alunos brilhantes, dos bancos escolares sairão verdadeiras seitas de fanáticos suicidas decididos a assassinar a língua portuguesa.

Nunca foi tão presente o vaticínio de DEREK BOK, famoso advogado e educador americano, ex-Reitor da Universidade de HARVARD, quando acertadamente disse: “Se você acha que a educação é cara, tenha a coragem de experimentar a ignorância”. Se estamos aqui e somos o que somos é por força da cuidadosa educação recebida no lar e da esmerada instrução ministrada pelos queridos mestres que dedicaram a vida à árdua tarefa do magistério, verdadeiro sacerdócio que nossa Academia, com a alma em festa, faz absoluta questão de publicamente reconhecer e prestigiar.

Na hipótese de prevalecer a decisão do Ministério da Educação, a sombria perspectiva que se oferece leva-me ao pesadelo de imaginar que caminhamos para a existência de dois tipos de cidadãos brasileiros: aqueles que tiveram a felicidade de plasmar sua cultura baseada no estudo dos grandes mestres, aprendendo a duras penas as regras gramaticais que enriquecem a escrita e a fala, produto cada vez mais raro ao alcance de uma minoria.

E os demais, vítimas do nefando conteúdo de livros editados sem compromisso com um aprendizado honesto, grosseira mistura com que deverá se satisfazer a imensa maioria dos estudantes, parcamente assistidos pelo órgão oficial que tem ou deveria ter a missão de protegê-los. É necessário que seja dito tudo isso, enquanto há tempo para corrigir rumos.

Sejam, portanto, lenientes no julgamento dessas nada agradáveis revelações, mas é o que ocorre nesse momento delicado que o Brasil atravessa. Invoco para melhor justificar a franqueza que uso neste pronunciamento, a frase insuperável de Wilhelm Reich que afirmou: “Faz parte do meu respeito pelas pessoas, expor-me ao perigo de dizer-lhes a verdade”.

Encerro desejando a todos uma excelente Festa de Sant’Ana. Reverencio mais uma vez mais os dedicados dirigentes e ex-dirigentes da Escola São José, nome inspirado no Padroeiro da Igreja Universal, cuja primeira turma de ginasianos integrei entre 1962/1965, ao lado de alguns nobres acadêmicos como Alberto Rogério Benedito da Silva e Carlos Antônio Barbosa da Silva.

A mesma homenagem e respeito estendo aos antigos e atuais mestres da Escola São Francisco, o piedoso patrono dos ambientalistas e dos animais, nossa grande e antiga rival nos vistosos desfiles de 7 de setembro, cujos alunos também honram com seu saber e o brilho de suas trajetórias de vida, a tradição de competência e disciplina do vetusto casarão.

Pelo que ali se ensina e se aprende, os Colégios São José e São Francisco são motivos de justo orgulho para Óbidos, o Pará e o Brasil. DECLARO ENCERRADA A SESSÃO. Muito obrigado!

* Discurso proferido pelo Drº Célio Simões de Souza, Presidente da Academia Artistíca e Literária Obidense – AALO, no encerramento da Sessão solene realizada na cidade presépio no dia 25.07.2011, na qual tomou posse o mais novo acadêmico do silogeu, o Sociólogo e escritor Fernando Pimentel Canto.

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