DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA ARTÍSTICA E LITERÁRIA DE ÓBIDOS*

Fernando Pimentel Canto

Havia dentro de mim um vazio de 50 anos. Uma ausência causada pela angustiante distância que o destino me ofereceu no tempo e no espaço, entre mim e a minha terra natal. Uma lacuna abissal que tanto se alargava quanto desvinculava a marca amazônica do meu ser, até então um ser que procurava caminhos iluminados e encontrava apenas amarguras. Nessa inconsciente debilidade, porém, outros eventos ocorriam no Cosmo a fim de me permitir inventar metáforas e me situar em paradoxos inevitáveis. Sentia-me muitas vezes uma planta desprovida de suas raízes originais, “pegada de galho”, como se diz entre os jardineiros.

Porém, um dia, devido a um insistente convite de um parente amigo, vim parar aqui e descobri uma cidade frágil vista lá do alto com seus barquinhos de miriti passando ao longo do fio d’água que corria entre suas margens. Apaixonei-me. A cada paralelepípedo parecia surgir uma história, a cada janela colonial eu ouvia nitidamente a voz dos meus antepassados, assim como o riso das crianças a brincar e assistindo os dobrados tocados pela banda municipal na Praça da Padroeira. Mas como a noite abriga o sonho e o sol lhe fustiga nas manhãs para diluí-lo, acordei. E aqui estou diante desta plêiade de homens e mulheres dizendo-lhes um pouco da minha história.

Foi em Óbidos que aprendi, aos cinco anos de idade, com minha mãe, as primeiras letras. Antes disso, porém, meu pai, Antonio Salgado Canto, um exímio carpinteiro e artesão, sonhou em lutar pelo Brasil na Segunda Guerra Mundial até se pensar inútil como soldado da borracha no ambiente hostil do rio Yaco, no longínquo Acre. Constituiu família casando com minha mãe, Maria da Saúde Pimentel Canto, uma professorinha sonhadora, típica do interior, que fazia versos de amor.

Depois de casados, em 1950, foram migrando ao encontro do sol do equador em busca de novas esperanças, e em Macapá tiveram seu primeiro filho, Carlos Roberto. Voltaram à Óbidos, onde eu e meus irmãos, Juvenal Antonio, José Eduardo e Savina Maria nasceram, até que em 1962, após uma longa viagem no navio “De Penedo”, chegamos em Belém, onde ficamos hospedados na casa de Tia Carmita e Tio Floriano, um casarão colonial no centro da cidade. Dias depois, num tempo de difíceis transportes, viajamos para Macapá em um avião Hércules da FAB, de inesquecível zoada. A promissora capital do então Território Federal do Amapá viu aumentar a família com os dois últimos filhos, Luiz Tadeu e Paulo Jânio.

Cresci e estudei em Macapá até que atravessei o Amazonas para tentar ver o mundo que só via na tela do cinema, nos livros, revistas e na imaginação. Junto a esse processo exerci minhas atividades musicais participando e sendo premiado em festivais de música, iniciando deste jeito minha arte. Formei-me bacharel em Ciências Sociais e me pós-graduei em várias áreas técnicas e científicas sem, entretanto, me desvincular da música e da Literatura, e sempre produzindo escritos nos mais diversos gêneros textuais.

E agora estou aqui diante de vocês neste ato solene, no qual me sinto verdadeiramente orgulhoso e muito emocionado, oferecendo o beijo à terra natal e a boca ao anzol, como a de um peixe que se pesca contra a correnteza no último lançar da linha.

E aqui estou eu despojado da incerteza de resgatar a mim mesmo as raízes do solo pauxis. Logo eu, um observador da vida amazônica, me vi arrebatado do texto irrepreensível de José Benito Priante no livro “Pegadas No Meu Caminho”, quando diz: “Quantas e quantas vezes, em frente a Óbidos, vi passar grandes troncos de árvores trazendo em seu bojo uma garça branca solitária se adaptando à força da natureza, viajando até onde lhe aprouvesse. E esse caudal líquido segue veloz até a sua foz para desembocar no Oceano Atlântico onde trava a sua luta com o mar”.

Então metaforicamente assim me sentia: passando ao curso do rio como uma garça sem rumo, mas conduzida por ele até as caudalosas ondas do Atlântico no encontro fatal com a pororoca, o macaréu amazônico que destrói a terra e a reconstrói adiante, num eterno pulsar ecológico que sedimenta o litoral e o coração dos habitantes litorâneos.

Assim posto, o destino me reservara com generosidade o dom da caminhada, a certeza de chegar a algum lugar, embora muitas vezes contra o vento, contra a correnteza. E um dia aportei neste cais para tentar montar um quebra-cabeças de difícil reconstituição, tanto eram as deslembranças e as desmemórias. E ao chegar aqui parecia que tudo se aclarava, que um novo horizonte se desvelava brilhando sobre a Serra da Escama e no reflexo do manto amazônico estendido frente a cidade. Como num filme mental, inúmeros fatos da infância se seguiram uniformes e consistentes, e o que era esquecimento nutria-se de memória viva, não sem uma estranha angústia perpassando o ato que reinaugurava em mim aquilo que sempre admirei nos obidenses que encontrava fora de Óbidos: o imensurável amor pela terra e a saudade inconteste que se impregna por todos os sentidos.

E agora, aqui, neste Egrégio Colegiado, o tempo parece não existir. É a pregnância aquática que nos torna o melhor produto do “topos” amazônico, ainda que nem sempre reconhecido seja pelos governantes. Ora, “A presença de Óbidos na Amazônia foi vital para manter a soberania da região”, nos ensina o cronista Hugo Ferrari no seu belo e revoltado texto sobre a cidade e a região. Indignado pelo destrato e desrespeito dos poderes públicos, o autor enfatiza que: “Nós é que fomos e continuamos a ser os verdadeiros defensores da Amazônia. Sem a nossa presença, pouca coisa existiria. O tratamento que recebemos, é como se fôssemos brasileiros enjeitados”. E mais adiante conclui: “Finalmente, não aprendemos a reagir democraticamente e a nos impor como fazem outros povos. Além de maltratados e ignorados, continuamos a bater palmas. Até quando?” Até quando, eu repito o autor, pois Óbidos traz em seu dorso a missão cumprida de proteger a região não apenas com seus canhões, mas com a inequívoca vontade de erguer a história de fatos honrosos por meio da inteligência e da coragem de seus habitantes primordiais. A essa inteligência certamente está ligada a cautela.

Como ativista da democracia sempre penso que a Literatura ajuda a promover a liberdade, um dos direitos fundamentais do homem. O modo de pensar e o direito de expressar o pensamento se constituem valores que promovem e calcificam a identidade amazônica, aquilo que nos serve de marca, em que pesem os valores contrários das alteridades que sempre observaram a Amazônia com o olhar espoliador de riquezas. Olhares e ações que historicamente deixaram um rastro de destruição e miséria, não obstante o trabalho de muitos amazônidas que deram o suor e o sangue para a reconstrução da vida e dos sonhos neste lugar paradoxalmente rico, todavia sofrido. Mas coube ao homem local realizar suas fantasias, inventar saberes e não se deixar levar pelo medo dos mitos que se agigantam na floresta e se diluem nas vilas. Coube a quem ficou a coragem incontestável do aventureiro europeu, do negro, do indígena e dos demais formadores desta identidade nacional, amplamente evidenciada na região.

Por isso, somos produtos de uma bela história. História esta que nos conduz a um humanismo expresso na escritura de Herculano Marcos Inglês de Souza e de José Veríssimo, testemunhas das “Cenas” da região, nas suas épocas. E o amor pela terra se expressa muito bonito através dos textos de Dino Priante, José Raimundo Farias Canto, Ary Jorge Ferreira, Ronaldo Brasiliense, Fernando Souza e Célio Simões, e de todas as mulheres e homens, membros ou não deste Silogeu, pelo testemunho escrito sobre pessoas, lugares e ideias, nesta terra rica de memórias.

Confesso que pouco conheço de minha terra e seus autores, embora me esmere para isso. Mas não posso deixar de citar o saudoso escritor Ildefonso Guimarães, autor de “Os Dias Recurvos”, que conheci pessoalmente durante o lançamento do meu livro “O Bálsamo”, em Belém, e Ademar Amaral, que escreveu o romance memorial “Catalinas & Casarões”, para mim um marco na literatura atual da Amazônia, pelo estilo vigoroso e ineditismo literário.

Ambos se basearam nas suas realidades históricas achando o fio de prumo literário nas suas memórias, das quais tiraram todos os esquecimentos e deram voz de tenor aos silenciamentos. Por isso entendo a posição de Ferrari em sua indignada oração. A nossa história não pode ser a dos vencidos.

Creio que para todos os membros desta Academia a Literatura não é simplesmente uma paixão por contar histórias ou por escrever suas especificidades inerentes. A Literatura é realmente uma paixão porque permite ao autor (re)inventar a vida, o que para mim é um gesto de magia, algo místico e misterioso, algo inexplicável. Se ao narrador, se ao autor cabe a ousadia da criação, cabe ao leitor tomar dele mesmo a experiência da invenção e imergir em um rio de perplexidade, e se afogar na diversidade de sentimentos que a história lhe permite enxergar. E como tal é preciso viajar sobre novas linguagens que se instauram na modernidade, assim como realizar releituras de mitos e ideias de mundo tão presentes na nossa (i)realidade amazônica, o que me faz considerar-me um escritor brasileiro impregnado dessa cultura regional, pois vivo a cotidianidade deste fantástico universo.

O meu “lócus” é, então, verdadeiramente a Amazônia. Mas nada disso me impede de ampliar meu universo, afinal, como muitos de nós, comecei lendo as fantásticas histórias dos versos de cordel nordestino, na infância, viajando nas aventuras de Cancão de Fogo, Lampião, Pedro Malazarte e Bocage, para depois entrar na imaginação de autores brasileiros como Machado de Assis, Castro Alves, Gonçalves Dias e José de Alencar, e finalmente me deixar levar nas asas das aventuras de D. Quixote, através de Cervantes, e assim, ganhar os clássicos, o mundo e sua graça.

Antes de terminar este discurso não poderia jamais deixar de contar a história do meu patrono, Padre José Nicolino de Souza, que chegou a minhas mãos, gentilmente encaminhada pelo presidente deste insigne colegiado, dr, Célio Simões.

Pe. José Nicolino de Souza nasceu em 10.08.1836 em Faro. Iniciou seus estudos primários no seminário que Dom José Afonso fundara em Óbidos, indo, porém, ordenar-se sacerdote em França, prosseguindo seus estudos em Roma. Lecionou no Seminário de Belém e foi vigário em Monte Alegre e em Óbidos, onde por muitos anos dedicou-se ao magistério da população pobre do município. Era filho de índia.

Tomou conhecimento, ainda na França, pela leitura de roteiros que seus mestres jesuítas lhe proporcionaram, da existência de extensos campos naturais para além das corredeiras do Rio Trombetas e de seu afluente o Rio Cuminá, sentindo-se atraído pela aventura da descoberta dessas regiões, sobre as quais pairavam notícias de mistérios e até onde apenas negros fugidos estavam chegando para estabelecer mocambos, longe dos horrores da escravidão.

Já no período colonial viera ordem de Lisboa para que se explorasse o curso do Trombetas. Padre Nicolino, por iniciativa própria, começou suas aventuras de bandeirante em 1876, movido por dois ideais: a pacificação e cristianização do povo mocambeiro do Rio Trombetas e do Rio Erepecuru e a catequese entre os índios. Para alcançar esses desideratos, empreendeu várias viagens por esses territórios, atingindo em 1876, o que é hoje a Cachoeira Porteira.

Atingiu os Campos Gerais, descobrindo-os, ainda que depois quisessem lhe tirar essa glória. Foi ele o homem que revelou ao mundo, os campos encantados que se estendem até as fronteiras com a antiga Guiana Holandesa.

Sobre suas aventuras escreveu obras de grande valor, descrevendo os mais importantes acidentes geográficos da região. Voltou ainda uma terceira vez, porém faleceu na margem do rio Cuminá no dia 8 de Novembro de 1882.

Em homenagem àquele que é considerado o fundador da cidade de Oriximiná, seus despojos foram para lá trasladados e colocados num sepulcro na capela-mor da nova igreja-matriz de Santo Antônio. Pode-se resumir a vida desse sacerdote-aventureiro dizendo que dos seus dois elevados ideais somente conseguiu realizar um deles: a catequese entre os mocambeiros daqueles rios acima citados, enquanto as tentativas de uma catequese entre os índios resultaram tímidas, simplesmente por não ter conseguido pleno êxito no contato com os silvícolas, extremamente arredios. Porém, ficou o exemplo de dedicação à causa do ensino enquanto foi vigário em Óbidos, sua descoberta das planuras dos Campos Gerais e seu idealismo. O livro escrito por Dom Floriano Loewenau – primeiro Bispo Prelado de Óbidos – em comemoração ao Jubileu de Ouro da Prelazia de Santarém, prestou-lhe significativa homenagem destacando sua contribuição ao ensino da população negra dos mocambos e comunidades negras de Óbidos e de Oriximiná.

Isto posto, resta-me agradecer a todos os confrades presentes ou não neste momento solene, que abriram o caminho para a minha inclusão em nossa (agora posso assim dizer) Academia e pedir ao grande Arquiteto Celestial que nos proteja e nos inspire em nossas criações e trabalhos literários e artísticos, para que possamos contribuir cada vez mais pelo engrandecimento da cultura obidense e amazônica como um todo.

Lembro apenas que a garça solitária das enchentes voltou ao seu ninho cheio de ternura e de ausência de desditas. Resta-me o dever de desvendar o mistério dos mitos da floresta que ao menos utilizei com a licença dos míticos heróis e dos ancestrais uma forma de ver o mundo com o olhar de um amazônida carregado de inquietações e de amor pela planície e seus habitantes.

Quero ainda agradecer a minha inesquecível mãe por ter me ensinado a ler na tenra idade, ao meu saudoso pai pela formação do meu caráter, à minha mulher Sônia, pelo amor e companheirismo destes 25 anos de casados, aos meus irmãos, amigos e parentes, pelo incentivo; e a todos os meus confrades desta Academia Artística e Literária de Óbidos, cujo nome procurarei honrar em todos os seus aspectos; e a minha terra natal, que reaprendi a amar em busca incessante, mesmo à revelia da força das águas que hoje se transformaram na calma maré de um plenilúnio amazônico, Muito obrigado.

* Discurso proferido pelo Acadêmico Fernando Pimentel Canto, por ocasião de sua posse na Acadêmia Artistíca e Literária de Óbidos, em sessão solene realizada no Auditório da Escola Estadual São José, no dia 25 de julho de 2011. 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s