GADO LEITEIRO EM TIRIÓS

Por GILBERTO DE CASTRO BITAR (*)

Manhã de Domingo – 07 de abril de 1963, bem cedo, no pátio de estacionamento de aeronaves do 1º/2º GAv, os preparativos para mais uma missão do CANAM.

O C-47 2045, tendo como Comandante o Cel.Av. Camarão- então Chefe do Estado-Maior da 1ª Zona Aérea, como 2P o 1º Ten. Av. Ary, como 1º Mecânico o 2S QAV Bitar, e como Rádio-Telegrafista o 2S QRT VO Waltemir, já com a carga a bordo, taxiou para o pátio do CAN, onde estacionou e embarcou os passageiros relacionados para os aeroportos de pousos intermediários da Linha LEA-3, cujo destino final era o Galeão, no Rio de Janeiro.

 

Para alguns, especialmente, os mineiros, os paulistas, os capixabas, e os cariocas, fazer uma LEA-3 era como receber um prêmio por bons serviços prestados – passar um dia de folga na Cidade Maravilhosa, intervalo previsto entre a data de chegada e a de regresso dessa Linha.

Doce ilusão! Somente o Cel. Camarão sabia que essa missão não era apenas mais uma LEA-3.

Embarque concluído, partida nos motores, táxi, procedimentos de cheques, e decolamos, cumprindo a LEA-3, com pousos, desembarques, reabastecimentos, e embarques em Conceição do Araguaia, Brasília, e, finalmente, chegada ao Aeroporto do Galeão.

Após o desembarque dos passageiros e da carga, no Terminal do CAN, taxiamos para o pátio de estacionamento da Base Aérea. Reabastecimento da aeronave, providências do pós-vôo para o pernoite, e pudemos dar início ao merecido descanso do dia.

Waltemir e eu, seguimos para o Cassino dos SubOficiais e Sargentos da Base, onde nos alojamos. O Cel. Camarão e o Ten. Ary, numa Kombi de transporte de tripulações do COMTA, se dirigem ao Clube de Aeronáutica – no centro da cidade – onde ficarão hospedados.

De acordo com o Quadro Horário da NPA da Linha LEA-3, a decolagem de regresso ficou marcada para as 11:00P do dia 09/04 – Terça-Feira. Caso houvesse alguma alteração nessa previsão, o Ten. Ary nos informaria por telefone.

Dito e feito, no início da tarde da Segunda-Feira, o Ten. Ary nos telefona e informa: – “O Cel. Camarão tem assuntos a dar continuidade no Ministério da Aeronáutica e, por isso, terá que permanecer aqui em RJ; determinou que levemos o 2045 para o Parque de Aeronáutica de São Paulo – PASP (Campo de Marte), onde irá fazer uma revisão completa, receber um reforço nas longarinas da fuselagem e trocar o piso do compartimento de carga e passageiros. E, acrescentou-me – Veja se consegue um piloto para ir com você; senão pode ir sozinho! Apresente-se ao Diretor do Parque para receber orientação sobre os serviços no 2045. Ele já está ciente do que vai ser feito. Em conseqüência, estou indo à Seção de Operações do COMTA, no Galeão, ver se consigo um piloto, e, vou pernoitar aí na Base Aérea.”

Nada a dizer, a não ser “Sim Senhor!” e pensar: Ainda bem que a Naza já está acostumada com “o difícil torna-se fácil e o impossível acontece…” da Amazônia.

Após o jantar na Base, o Ten. Ary nos encontra e diz que conseguiu o Piloto – 1º Ten. Av. Barroso, um Oficial do COMTA que precisa ir a São Paulo, e confirma a decolagem do Quadro Horário da LEA-3: 11:00 P, só que para o Campo de Marte e não para Belém.

09/04 – No horário previsto, decolamos para São Paulo – Campo de Marte (SBMT) e lá pousamos.

Na Quarta-Feira – 10/04, os serviços, já programados para o 2045, foram iniciados, com o Waltemir e eu engajados nas atividades. Trabalhamos até o meio da tarde do dia 19/04 – Sexta-Feira, quando, rodados os motores e concluída a vistoria da Equipe de Inspeção do PASP, o 2045 foi considerado pronto.

Em seguida, com o Ten. Ary e o Cap. Av. CASEMIRO, um Oficial da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EAOAR), localizada em Cumbica/SP, fizemos o vôo de experiência do 2045, com tudo normal.

Sábado – 20/04, decolamos para a Base Aérea de Cumbica, embarcamos a carga existente no Posto CAN, destinada ao Galeão e a Belém, e fomos para o Rio de Janeiro, pousando no Galeão. Aí nos aguardava o Cel. Camarão que perguntou como estava a aeronave e se todos os serviços de modificações na mesma tinham sido executados. Cientificado que tudo havia sido feito como determinado, marcou a decolagem de regresso a Belém para a Terça-Feira – 23/04 e dispensou-nos.

Na Terça-Feira – 22/04, decolamos do Galeão, com carga e passageiros para Belém, realizando pousos intermediários em Brasília/DF e Carolina/MA.

Ao chegarmos a Belém, após o estacionamento no Posto CAN e o desembarque dos passageiros, o Cel. Camarão nos cumprimentou, despedindo-se e comunicando: – “O 2045 e a mesma tripulação decolarão, no dia 25/04, com destino a Tiriós e Boa Vista”.

Nesse dia 25/04, decolamos como previsto e fizemos as etapas Belém/Santarém, Santarém/Óbidos, Óbidos/Tiriós, e Tiriós/Boa Vista, com pouso em cada uma dessas localidades, e chegando a Boa Vista ao final da tarde. Em Santarém, embarcamos tambores de combustível – gasolina de aviação e óleo diesel – para reabastecimento das nossas aeronaves e do motor-gerador da Missão, em Tiriós. 

No dia seguinte – 26/04, decolamos cedo de Boa Vista, com um passageiro inusitado – um caboclo magro, baixinho e de pouca conversa, condenado pela Justiça e preso na Penitenciária de Boa Vista, que o Cel. Camarão havia de lá retirado “sob cautela” (*1). Com o Cel. Camarão como 1P, voamos, na direção sudeste, por quarenta e cinco minutos, em rumos que ele modificava, à medida que olhava o terreno e conferia os dados da sua memória. Findo esse tempo, iniciou a descida e nos pousou, em uma pista improvisada de um pasto do que nos pareceu uma fazenda – tempo de vôo: 00:55; – nome do local do pouso, na falta de outro oficializado, sugerido por um dos tripulantes e aceito pelo Cmt. da aeronave: Fazenda Camarão (como constou do Relatório de Vôo do 2045 e consta das Caderneta de Vôo da tripulação).

Fomos recebidos como já aguardados e, de imediato, nos engajamos na “batalha” de embarcar e fixar, com cuidados especiais e amarração acurada, a preciosa carga no piso, agora reforçado e protegido por um lonado grosso, do 2045: um touro e nove vacas (uma das quais prenha). O passageiro inusitado participou das tarefas, com disposição e saber – era um vaqueiro!

Acomodados os novos “passageiros”, decolamos para Boa Vista, ainda com o Cel Camarão com 1P, porém, agora em rumo direto, onde pousamos, após trinta e cinco minutos de vôo. E, nesse curto trajeto, descobrimos que boi também vomita em vôo, além de outros imprevistos! Pernoitamos, em Boa Vista, onde os animais permaneceram amarrados, na aeronave, e o vaqueiro foi “hospedado” numa delegacia.

Na madrugada do Sábado – 27/04, guarnecemos a aeronave e decolamos noturno (duas horas e cinco minutos antes do nascer do sol), com destino a Tiriós. Em vôo sobre um terreno com paisagem de campos gerais, mesclado por conglomerados de floresta fechada e sem muitas referências visuais, vasculhávamos o horizonte à frente na expectativa de vislumbrar o reflexo do sol na cobertura de chapas de alumínio da construção-residência que abrigava os Frades Franciscanos – Frei Cirilo e Frei Lamberto – na aldeia dos Tiriós. Após duas horas e meia de vôo, ali pousamos com nossa inusitada carga.

Aí muita surpresa, medo, emoção e, depois, muita alegria!

Logo ao desembarcar, uma das novilhas que não suportou as condições da viagem deitou-se no chão e morreu.

Os índios Tiriós, curiosos e acostumados a assistir aos desembarques dos nossos aviões ali chegados, nunca haviam visto animais como aqueles, que saíam aos trancos e tropeços (alguns escoiceando) e iam sendo reunidos pelo vaqueiro (agora em liberdade! (*2).

Correria geral para longe do local do desembarque! Alguns só pararam quando chegaram às distantes malocas e deram a notícia da chegada das estranhas criaturas.

Muito lentamente, observando que os animais já começavam a comer a vegetação do local onde tinham sido reunidos, e, como o vaqueiro, principalmente, e Frei Cirilo os tocavam no dorso, começaram a se aproximar cautelosos para apreciar mais de perto.

Assim, pouco a pouco, alguns foram chegando mais perto e “corajosamente” fizeram o que o vaqueiro mandava: tocar o dorso de uma das novilhas. Comemorações e explosões de alegria… Tocavam numa novilha e dela se afastavam correndo, aos pulos e se exibindo em pantominas para os menos afoitos que assistiam de longe.

Não sabemos quanto tempo durou essa cerimônia de adaptação (do gado aos índios Tiriós), pois, descarregada a aeronave (petrechos do vaqueiro e víveres, sal e medicamentos para os animais, etc.), partimos de regresso a Belém, com pousos intermediários em Óbidos e Santarém.

 FIM

(*1) – “Retirar sob cautela” é um procedimento (não exclusivamente militar) no qual se assina um documento (Cautela) para a utilização de um item de patrimônio material, registrado e controlado no Órgão/Instituição dele detentora, tornando-se responsável pela sua devolução, nas mesmas condições de uso do momento da retirada e no prazo estabelecido, e, sujeitando-se às penalidades do não cumprimento na “forma da Lei”. Como ninguém da tripulação acompanhou o Cel. Camarão nesses trâmites, somente ele, o então Governador do Território Federal de Roraima – Francisco de Assis Albuquerque Peixoto, o Diretor da Penitenciária de Boa Vista, e DEUS sabem o que e como isso ocorreu na “cautela” do vaqueiro.

(*2) – O “agora em liberdade!” significa que, a partir daquele momento, o vaqueiro (condenado e preso na Penitenciária de Boa Vista) readquiria o direito de ir e vir, ficar e sair (ou fugir), sob a tutela e observação apenas do Frei Cirilo. E, embora com casa, comida, roupa lavada (que também já tinha na prisão), e trabalho do qual conhecia e gostava, estava a menos de dez quilômetros da fronteira do Brasil com o Suriname, necessitando somente de coragem e sorte para vencer essa distância, através de mata cerrada, quente e úmida. Porém, essa possível intenção teria um outro fator complicador: estava ali “em liberdade” para cuidar do gado e ensinar aos Tiriós as artes do seu manejo; se resolvesse iniciar a aventura de chegar ao Suriname, os Tíriós iriam aceitar ficar sem o seu instrutor?

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Sobre o Autor: Gilberto de Castro Bitar é Industrial e exerce suas atividades, como Diretor de Manutenção, em uma empresa privada da área de construção civil, em Belém/PA. Formado Sargento Mecânico de Vôo (QAV) da FAB, pela Escola de Especialistas da Aeronáutica, em 1956, iniciou sua carreira militar, servindo na Amazônia, e durante 17 anos pertenceu ao efetivo do 1º/2º Grupo de Aviação e do 1º Esquadrão de Transporte Aéreo, em Belém/PA. Passou para a Reserva da Aeronáutica, em 1972, como 1S QAV, e continua na aviação como piloto de ultraleve. Ainda muito bem casado – há 48 anos – com a Cotinha, é pai de Gilna e de Gilberto, que é piloto comercial.

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