DISCURSO DE POSSE NO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO PARÁ

Célio Simões de Souza

Ser agraciado com a Medalha PEDRO TEIXEIRA do Instituto Histórico e Geográfico do Pará é honraria que engrandece qualquer empossado, destacando-o sobremaneira no cenário intelectual do Estado do Pará.

São tão eméritos os nomes que compõe este Instituto, que não posso negar o justo orgulho de, a partir de agora, dele fazer parte, desde a aprovação da minha obra sobre a cidade de Óbidos, que obteve parecer favorável da Comissão de Admissão de Sócios, cujos integrantes não nos é dado conhecer, o que assegura absoluta lisura na porfia pelas vagas disponíveis.

Refletindo melhor, admito ter sido uma ousadia a pretensão de candidatar-me e foi com surpresa que recebi o Ofício Circular n.º 02/11 (de 20.10.2011) informando que eu havia merecido aprovação para ocupar a Cadeira n.º 18 do Silogeu. A surpresa, bem explicado, exclui os dois outros aprovados, dignos representantes da cultura local, limitando-se apenas ao meu nome, ainda carente de afirmação entre os que fazem da história, da geografia, da antropologia e da etnografia, objeto de seus estudos e preocupações.

Face ao resultado altamente positivo, peço permissão aos eminentes membros da Comissão de Admissão, instância que corresponde à própria Assembléia Geral do Instituto, que lhes manifeste meu especial e profundo reconhecimento pelo galardão que ora recebo, nele vendo claro estímulo para prosseguir na pesquisa das ciências sociais, à qual sempre e anonimamente me dediquei.

O Instituto Histórico e Geográfico do Pará é uma instituição científica e cultural localizado no emblemático Bairro da Cidade Velha em Belém e sua fundação remonta a 03.05.1900. Domingos Antônio Raiol, Barão do Guajará, herdou o prédio ao se casar com a sobrinha do Visconde de Arari, tornando-se, ele e seus famíliares, os últimos moradores do belíssimo solar.

O Barão morreu nessa casa no ano de 1912, aos 82 anos de idade e em 1942, o então prefeito de Belém, Abelardo Leão Condurú adquiriu o prédio de um de seus herdeiros e com ele os móveis e a biblioteca. Desde 1944 abriga o Instituto Histórico e Geográfico do Pará, atualmente submetido a demorada reforma, daí o fato da minha posse ocorrer, por especial mercê do ilustre Prof.º Reinaldo Gonçalves, neste auditório da ESAMAZ.

A partir de seu surgimento, há mais de um século, sempre foi seu objetivo promover estudos e explorações geográficas, investigações históricas, arqueológicas e etnográficas, de sorte a acumular crescentes dados para o domínio e o conhecimento dos homens de ciência. Ver-me entre eles, nesta oportunidade, causa-me incontida e justificada satisfação.

Já venho de algum tempo escrevendo, embora não sob a forma mais duradoura dos livros, porém através de crônicas e contos esparsos, sobre a trajetória histórica, o linguajar, os costumes e o modo de vida do povo do Oeste do Pará, para enfatizar o quanto se diferenciam do restante do Estado, residindo aí, numa análise superficial, apenas um dos fatores – mas certamente não o único – a alimentar o antigo sonho de separação daquela gente.

Tendo passado boa parte da minha vida no Baixo Amazonas, sei do que estou falando. Nada nos liga à região “do salgado”, do nordeste paraense, do sul do Pará ou às ilhas do estuário deltado do Amazonas. Somos nós mesmos, com aspirações, tradições e sentimentos próprios. Prova inconteste deste fato é a recente fundação do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, sediadoem Santarém, tendo entre seus fundadores o digno Desembargador do Trabalho, músico e professor Vicente Malheiros da Fonseca, que abrilhanta esta solenidade com sua presença.

Ingresso no Instituto ciente das minhas responsabilidades. A primeira delas, honrar a Cadeira n.º 18, patronímica do grande homem de imprensa que foi Frederico Barata.

Amazonense de nascimento, paraense de coração, integrou os Diários e Emissoras Associados em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e finalmente Belém, tanto no rádio como na lendária Revista “O Cruzeiro”, a ponto de merecer de Assis Chateaubriand, no ano de 1926, a expressão de ser ele um jornalista com “todas as fibras da alma”, pela sua soberba atuação.

Afirmei alhures que o Instituto procura fomentar a pesquisa científica no campo específico das ciências sociais e esse foi uma das razões da vinda de Frederico Barata pela vez primeira a Belém, para tentar através de seu poder de persuasão, interessar gente abastada das outras unidades da Federação, a sustentar financeiramente o Museu Emílio Goeldi, assim viabilizando a divulgação dos trabalhos científicos desenvolvidos, ao redor do mundo.

Foi o próprio Chateaubriand quem destacou sua luta nesse sentido em 1937, quando o Goeldi já pertencia ao Governo Federal, sendo desnecessário frisar que ali despontava não apenas o homem de imprensa, mas o homem de visão, o idealista, quem sabe o sonhador a transformar em realidade seus próprios e elevados sonhos.

Dizer que a atuação de Frederico Barata limitou-se à imprensa e ao Museu Emílio Goeldi seria injustiça, haja vista suas outras frentes de luta, todas apoiadas incondicionalmente por Chateaubriand, como, por exemplo, aquela da criação do vespertino “A Vanguarda”, em defesa da ocupação ordenada da Amazônia, em Fevereiro de 1943.

Quatro anos mais tarde restaurou um dos mais festejados jornais do nosso Estado – A Província do Pará, em Fevereiro de 1947 – coincidentemente o ano em que vim ao mundo na histórica Óbidos, com suas ladeiras e casarões, cujas técnicas construtivas foram imortalizadas pela mestra Jussara Derenji, em seu “Caderno de Arquitetura 1” editado em 1997 pela UFPa.

Tudo o que sobre aquela cidade se escreve tem como pano de fundo a Serra da Escama e seus canhões Armstrong, de que nos fala Ildefonso Guimarães no livro “OS DIAS RECURVOS”, uma abordagem irretocável da Revolução Constitucionalista de São Paulo de 1932, a qual apenas o Quartel do Exército em Óbidos, sublevado pelos sargentos, aderiu em toda a região norte.

De Frederico Barata, fantástico homem público que tanto fez por esta Amazônia de vocação continental, pode-se dizer que não se limitou a notícias e comentários e sim a estudos de grande valia, com admirável perspicácia, de minúcias de sua problemática, sendo um dos primeiros a perceber os fatores que transformaram a antiga estática das relações sociais da imensa região em turbulentos entrechoques de interesses e aspirações, entre gente daqui e de fora, do Brasil e do exterior.

A cultura brasileira perdeu Frederico Barata em 07.05.1962, porém ficou na lembrança dos que com ele privaram sua proveitosa atividade, a figura do jornalista nato, do administrador, do escritor, do pesquisador e do crítico de artes de avantajada lucidez.

Peço permissão, Sra. Presidente, para citar trecho do pronunciamento da saudosa Maria Brígido de Abril do ano de 2000, verdadeiro aval sobre os encômios erguidos ao patrono da Cadeira 18, que agora ocupo:

…Diante de mim, neste instante, um livro raro, editado em São Paulo em 1954: “O Muiraquitã e as contas do Tapajós”. Livro de levantamento arqueológico, etnográfico, lingüístico, de uma realidade – a das pedras verdes – que são como metáforas da Amazônia, desde o apreço que tinham pelos muiraquitãs os índios da região a se confrontar, pelo século XVII, com os missionários brancos que viam nas pedras valor tão só para vendas e permutas sem a simbologia índia para além do decorativo e, até, do estético. E como Frederico Barata entendeu da “arte oleira do Tapajó” (nome de trabalho seu, saído em publicação no Instituto de Antropologia e Etnologia do Pará, em que estuda a tipologia de Santarém, sua cerâmica, sua geologia, a tradição oral de que se orgulha) e das urnas marajoaras que, como poucos, examinou, que no formato, que na estilização das idéias em que se inspiraram seus criadores a se perder nos longos da distância e da memória. O seu volume (1953) “Uma Análise Estilística da Cerâmica de Santarém”, lançado pelo Ministério então da Educação e saúde, comprova sua sólida sabedoria em matéria de criação popular da arte, prova de uma erudição que expressava tão bem a curiosidade intelectual de que se compunham sua psicologia humana e o amor que tinha pela cultura no sentido antropológico”.

Como antes enfatizei, passo a titular da Cadeira n.º 18, patronímica de Frederico Barata, tendo como último ocupante José Duarte Valente Júnior, o escritor, o cronista, o historiador, o jornalista, o militar que soube conciliar a aridez da caserna com o lirismo das poesias de seu livro “Musa Pagã”.

Abro um parênteses para revelar o que sobre ele foi dito na internet, que tudo informa e tudo ensina, matéria intitulada HISTÓRIA E HERÓIS, postada em 07.11.2009, sem que me fosse possível identificar o autor:

José Duarte Valente Júnior, paraense de Barcarena, é meu amigo e nem sabe.

João Carlos Vicente Ferreira,  paranaense de Santa Cecília do Pavão, é meu amigo e nem sabe.

Ambos escritores, poetas, trovadores.

Do primeiro, tenho três livros. Três livros que me acompanham sempre. Já foram pra Mosqueiro, pra Salinas, pro banheiro, pra sala, pro quarto. Já li e reli várias vezes. Seja direto. De trás pra frente. Aleatóriamente.

Os três tratam de nos educar sobre nossas origens, nossa história. Tenho pra mim que são três livros de história e de antropologia, pura. Estou falando de:

  • A HISTÓRIA NAS RUAS  DE BELÉM – CIDADE VELHA

  • A HISTÓRIA NAS RUAS  DE BELÉM – UMARIZAL

  • A HISTÓRIA NAS RUAS  DE BELÉM – MARCO/PEDREIRA

Sinceramente não sei se este mestre, este professor escreveu mais outros livros sobre nossas ruas (quem souber, por favor, nos informe aqui).

Do segundo, tenho CIDADES DO PARÁ – ORIGEM E SIGNIFICADO DE SEUS NOMES, também uma obra prima de pesquisa, de história. O livro que tenho foi um oferecimento (…), através de patrocínio cultural. É um espetáculo de informação.

Estes escritores são uns heróis!

Eu responderia à indagação, dizendo que José Valente, na série sobre A HISTÓRIA DAS RUAS DE BELÉM, escreveu sobre as (ruas) de Nazaré, Reduto, Jurunas, Batista Campos, Canudos e São Brás e hoje estaria no mínimo consternado, ao constatar a impune troca de nomes de nossos logradouros tradicionais, substituídos aqui e ali por outros sem qualquer vínculo com as raízes históricas de Belém.

E mais inconformado ficaria esse mestre da narrativa com a gritante sem cerimônia com que é ostensivamente desconsiderado o sentimento da sociedade, na pretensão de desmontar os ARMAZENS 11 e 12 do nosso porto, construídos em ferro trabalhado, ultrajando a memória e a estética de uma Capital que sofre agressões de toda ordem, seja pela especulação imobiliária, seja pelo desamor do Poder Público ou dos seus próprios habitantes.

Penso que até mesmo involuntariamente contribuímos com esse descalabro, pois viramos as costas para a Baía de Guajará, a partir da década de 1960, quando a capital da República foi transferida para Brasília e passou a ser ligada a Belém pelos 2.200 Km da BR-316, antiga BR-010. É que toda uma região, antes inatingível a não ser através dos rios e igarapés, passou a ser alcançada de caminhão; pavimentada a rodovia, inverno e verão deixaram de condicionar o trabalho de seus habitantes. O rio, pelo menos em nossa Capital, pedeu o comando da vida, contradizendo o extraordinário regionalista e escritor Leandro Tocantins, cujo livro (“O RIO COMANDA A VIDA”) é considerado até hoje um clássico sobre a região amazônica, com preciosos subsídios sobre nossas várzeas, o modo de vida, os costumes e as características do homem amazôniCO.

Surgiram estradas derivadas, ligando à principal todas as antigas cidades e vilas ribeirinhas. Outros núcleos nasceram como por encanto ao longo se seus percursos. E esse fluxo vertiginoso de pessoas, veículos e mercadorias fez da rodovia e não do porto, o nosso centro de atenções. Só se fala em como fazer para sair ou chegar a Belém pela estrada – e só.

José, valente no nome e nas atitudes, com sua pena afiada, faria coro a mais essa tentativa de descaracterização da Capital Paraense, que já mereceu, inclusive, enérgica providência do Ministério Público Federal e da nossa Justiça Comum, visando coibir o abuso. Era ele um apaixonado por Belém, pelo seu traçado urbano, estudioso de suas personagens, paixão que sempre foi correspondida pelo público, que soube retribuir-lhe tal dedicação comparecendo em massa em seu velório no dia 20.09.2008, quando nos deixou aos 81 anos.

Meu antecessor cursou o primário e o ginásio em Curitiba, antes de sentar praça como Aprendiz de Marinheiro em 1943 e entre 1946/1947 fazer o Curso de Formação de Sargentos da Aeronáutica. Cursou jornalismo também em Curitiba e o de Corretor de Seguros na Fundação Nacional de Seguros, no Rio de Janeiro, tendo contraído suas segundas núpcias com a professora Doralice da Silva Nogueira Duarte Valente, cuja perda o abateu profundamente.

Foi fundador e Conselheiro Municipal da União Brasileira de Trovadores (Seção Belém) e fundador da Associação Paraense de Escritores. Fundou a Academia Paraense de Jornalismo à qual também pertenço, que para nossa satisfação por ele foi presidida a partir de Outubro/2002.

Manteve festejada coluna em O LIBERAL, intitulada “Acontece na Vida do Pará”. Mas José Valente não ficou apenas no jornalismo, tendo lançado mais de dez livros nos gêneros de história, poesia e prosa. No jornal antes citado, Valente tornou-se colaborador assíduo discorrendo com propriedade sobre fatos relevantes da vida do Pará e dos paraenses desde os primórdios, destacando-se a coluna “HOJE É PARÁ”, no antigo caderno CARTAZ.

Esse ilustre cidadão, nascido em 14.02.1927 na histórica Barcarena, berço da Cabanagem, que nos brindou com obras de excelente qualidade como “Farpas Históricas” e “Vento Geral”, vencedor contumaz de concursos literários, como aquele promovido pela FUNTELPA com o tema Cabanagem, concorrendo com a crônica “Cabano de Aicaraú” é que substituirei neste Instituto, sabendo de antemão que como um modesto curioso da história, dele poderei apenas e remotamente me aproximar.

Esta é a mensagem sincera que transmito às ilustres personalidades aqui presentes, amigos, convidados e familiares que dão a esta noite, para mim, especial colorido. A todos devo o incentivo que me faz subir este importante degrau na escada da cultura a que pode aspirar um cidadão.

Com especial emoção agradeço as palavras com que me recebeu, representando o Colegiado, meu estimado amigo Walber Monteiro, também confrade e ex-Presidente da Academia Paraense de Jornalismo, atribuindo as gentilezas que por ele me foram dirigidas, à sua conhecida e costumeira generosidade.

Aos meus queridos familiares e a todos, de coração, muito obrigado.

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