DISCURSO DE SAUDAÇÃO*

Walber Monteiro 

Não há como evitar o lugar comum de afirmar, neste introito, que acolhi com profunda alegria o convite que me foi formulado pela estimada presidente do nosso Instituto Histórico e Geográfico do Pará para proceder a saudação ao meu amigo – e a partir de hoje duplamente confrade – Célio Simões de Souza, na solenidade que o investe na condição de novo membro deste Silogeu.

De fato, torna-se quase impossível encontrar outra maneira adequada, em momentos como este, de falar de quão honrosa é esta missão, igualmente prazerosa em função dos fraternos laços de amizade que nos unem há anos, facilitada, também, pela bela trajetória de vida que ostenta o nosso empossando. 

E desejo, a partir deste instante, tentar empreender uma viagem em pensamento, penetrando pelas belezas ímpares desta nossa tão cobiçada Amazônia, até alcançar as coordenadas onde o portentoso Rio Amazonas identifica seu ponto mais estreito entre suas margens (apenas 1,8 km), a sua “fivela”. Ali iremos encontrar uma cidade encantadora, berço de muita gente ilustre, entre os quais o advogado, escritor e jornalista Célio Simões de Souza: Óbidos. 

E lá que começa a trajetória deste brilhante paraense que irá ocupar a cadeira que tem como patrono o jornalista Frederico Barata e cujo último ocupante foi o também jornalista José Duarte Valente. 

Célio Simões veio ao mundo em uma véspera de Natal, em 1947, dois anos após o término da terrível Segunda Guerra Mundial, embalado pelas canções de amor e paz que eram entoadas na “Cidade Presépio”, como Óbidos é carinhosamente chamada. Único filho homem do casal Francisco Lôbo de Souza e Lady Simões de Souza, foi exatamente o “do meio”, em uma prole de mais quatro irmãs. 

Sua infância foi igual à de qualquer outro menino obidense, com a felicidade de contemplar as belezas naturais de sua terra, apaixonando-se, desde logo, pelas suas raízes históricas e culturais, convivendo com a imponente visão da Serra da Escama, em cujo topo foi erguida a Fortaleza Gurjão, símbolo da resistência lusa em sua tenaz e gloriosa missão de defender a região dos invasores holandeses, franceses e ingleses que, nos idos do Século XVII, insistiam em tomar a Amazônia. 

Confesso-vos que sou tentado, ao reler os escritos do confrade Célio Simões de Souza sobre a sua querida Óbidos, na revista “Ver-o-Pará” que editei ao longo de 14 anos, a aprofundar essa viagem sentimental a essa terra pela qual aprendi a ter um carinho todo especial por estar nela, como se diz comumente, o “umbigo” de outra pessoa muito querida: o pai de minhas adoradas netas, meu genro Tito Eduardo Valente do Couto. Mas, a razão e o protocolo me impõem não cansar meus ouvintes com um discurso que ultrapasse os limites do aceitável. 

Não obstante, permitam-me trazer a esta saudação um trecho do próprio empossando, em artigo intitulado “Óbidos, sua história, sua gente”, no qual discorre, entre outros aspectos, sobre a evidente “preocupação de seus habitantes com a esmerada educação de seus filhos, mandando-os para prosseguir os estudos em Belém e outros centros mais evoluídos, sem, entretanto, descurar do preparo intelectual daqueles que, sem recursos, tinham que ficar…”

Célio Simões afirma ser “inquestionável a origem militar de Óbidos e por muitos anos, no Império ou na República seu cotidiano está ligado às atividades castrenses. Tanto a assertiva é verdadeira que em 1909, bem próximo à Capela do Bom Jesus, foi inaugurado o belíssimo Quartel do Exército, para sediar o 4º Grupo de Artilharia de Costa, que em sua trajetória conheceu o apogeu e decadência.” Citado por Simões, outro notável filho de Óbidos, o saudoso escritor Ildefonso Guimarães, em sua obra “Os dias recurvos”, destacava a importância do quartel para a vida dos seus habitantes, que possuíam, “invariavelmente, alguém da família prestando o serviço militar obrigatório ou tentando fazer a carreira das armas. Para os obidenses, era a sua “universidade”. 

“Entretanto – prossegue Célio Simões – essa vinculação com a caserna não impediu que muitos obidenses se destacassem nas ciências, na política, nas artes, no serviço público e nas letras, inclusive jurídicas, bastando citar duas das maiores expressões de nossa literatura, ambos fundadores da Academia Brasileira de Letras, o jornalista, educador, escritor e crítico literário José Veríssimo de Matos e o romancista, jurista e tratadista Herculano Marcos Inglês de Souza. Destaque inegável tiveram também Manoel Francisco Machado, o Barão do Solimões, Governador da Província do Amazonas, doutor por Coimbra e uma das mais sólidas culturas do Império; os desembargadores Romualdo de Souza Paes de Andrade e Raymundo Nogueira de Faria, que presidiram o Tribunal de Justiça do Estado; os padres Raimundo e Antônio Manuel Sanches de Brito; os Ministros do Tribunal Superior do Trabalho Raymundo de Souza Moura e Rider Nogueira de Brito (ambos o presidiram, a observação é nossa); o ativista político Pedro Pomar; o poeta Saladino de Brito; os escritores e intelectuais Francisco Manoel Brandão, Benjamin Lima, Luis Carlos Urquiza, Ildefonso Guimarães e Ademar Amaral; o administrador e político Augusto Corrêa Pinto; o jurista e jornalista Eduardo Grandi; o artista plástico Klinger Carvalho; o conselheiro, médico e pesquisador Manoel Aires; o procurador de justiça Geraldo Magela Pinto de Souza; o desembargador federal Eliziário Bentes, do Tribunal Regional do Trabalho, entre tantos outros”. 

Nesse “entre tantos outros”, mas, com absoluta certeza, com o destaque que você deu aos demais, meu caro Célio Simões, inscreve-se o seu nome, não apenas pelo seu ingresso, hoje, neste Instituto Histórico e Geográfico do Pará, mas pela sua história pessoal, construída com denodo e dignidade, competência e altruísmo, inteligência e simplicidade.

Quanto orgulho terão de você, seus colegas e professores dos tempos em que frequentou os bancos escolares no Grupo José Veríssimo, onde completou o antigo primário, e no Colégio São José, ambos na “terra dos Pauxis”? Há justificada alegria entre os que compartilharam com você, no nosso inesquecível Colégio Estadual Paes de Carvalho a honra de envergar o uniforme cepceano, em aplaudi-lo pelas vitórias conquistadas. 

Concluída a formação secundarista, Célio Simões ingressou no curso de Direito da Universidade Federal do Pará, graduando-se em 1976. Cursou Metodologia do Ensino Superior no antigo CESEP, hoje Universidade da Amazônia, sendo pós-graduado em Direito do Trabalho pela Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro.

Como advogado militante, foi Conselheiro Estadual, Coordenador da Escola Superior de Advocacia, presidente da Comissão de Combate ao Trabalho Forçado e Juiz Membro do Tribunal de Ética e Disciplina, todas essas funções na Seccional do Pará de nossa Augusta Ordem dos Advogados do Brasil. 

Ainda na área jurídica, tornou-se membro efetivo do Instituto dos Advogados do Pará; fundador, Conselheiro e Vice Presidente da Associação dos Advogados Trabalhistas do Estado do Pará; foi professor coordenador do Curso de Direito da Universidade da Amazônia e por dois anos integrou a Advocacia Consultiva da União; foi Procurador Chefe da Procuradoria Trabalhista do Município de Belém e Juiz do Tribunal Regional Eleitoral do Pará, na classe de jurista, no período de 08 de novembro de 2005 a 2007 e de 04 de março de 2008 até 2010. 

Pertence, ainda, às seguintes entidades e associações culturais: Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (Turma de 1979), União dos Juristas Católicos de Belém, Academia Paraense de Letras Jurídicas, Academia Artística e Literária de Óbidos (entidade que idealizou, fundou e, atualmente, preside) e Academia Paraense de Jornalismo, na qual somos confrades. 

Como escritor, recebeu da Revista Troféu, de São Paulo, a MEDALHA DE PRATA pela conquista do segundo lugar em concurso literário de âmbito nacional. Tem publicado crônicas e contos em sites de Belém, São Luís, Manaus e São Paulo. Uma delas, intitulada “A triste sorte de um pinto sem dono” foi incluída no PAVILHÃO LITERÁRIO SINGRANDO HORIZONTES da Academia de Letras do Brasil (Brasília/DF). Com os escritores Ademar Amaral, Carlos Antônio Silva e Bella Souza, colaborou no livro “UM ABRAÇO APERTADO”, patrocinado pela Prefeitura de Óbidos, que foi tornado leitura obrigatória sobre a história do Rio Amazonas para a rede pública de ensino daquele Município. 

É parceiro musical do músico e Desembargador Vicente Malheiros da Fonseca, escrevendo poesias para as valsas ISABELE, HANA, ELBINHA, marchinhas carnavalescas, e os Hinos Oficiais da ESAMAZ e da Academia Artística e Literária de Óbidos. 

Pelo seu desempenho profissional e como cidadão exemplar, já recebeu várias distinções, entre elas: Medalha comemorativa da inauguração da sede da OAB/PA, concedida pelo Conselho Secional, em 1985; Elogio da Presidência da OAB/PA, por seu trabalho em prol da classe como Conselheiro, no biênio 1985/1987; Plaqueta de prata outorgada pela Prefeitura Municipal de Óbidos, pelos relevantes serviços prestados ao Município, por ocasião da comemoração de seus 300 anos, em 14.07.1997; Comenda do MÉRITO ADVOCATÍCIO, concedida pela OAB/PA, pelos relevantes serviços prestados à classe dos advogados, em 1997; Título de DIRETOR BENEMÉRITO outorgado pelo CENTRO DE ESTUDOS DOS ADVOGADOS DO BANCO DO BRASIL, pelos relevantes serviços prestados a essa instituição como seu idealizador e primeiro Diretor Geral, em 1997; Título de HONRA AO MÉRITO como alto reconhecimento da Câmara Municipal de Óbidos (PA), pelos relevantes serviços prestados ao Município, em 1997; Menção honrosa conferida pela Associação dos Advogados Trabalhistas do Estado do Pará – ATEP, pelos relevantes serviços prestados a essa entidade, em 1999; Título de HONRA AO MÉRITO, outorgado pelo Conselho de Mediação e Arbitragem do Estado do Pará (COMAPA) e pela Escola de Árbitros e Mediadores do Estado do Pará (ARBIMED), pelos relevantes serviços prestados às referidas instituições, em 2000; Medalha da Academia Paraense de Jornalismo, como reconhecimento aos relevantes serviços prestados àquela entidade; Plaqueta de Prata outorgada pela OAB/PA em Dezembro/2006, pelos relevantes serviços prestados à advocacia paraense; Foi agraciado com a Especial Benção Apostólica de S. Santidade o Papa João Paulo II (Ex Aedibus Vaticanis, die 10.02.2003), por sua atuação como advogado membro da UJUCART Belém (PA); Condecorado com a MEDALHA DO MÉRITO ELEITORAL pelo Tribunal Regional Eleitoral do Pará em 05.11.2010, na categoria de jurista, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados à Justiça Eleitoral no Estado do Pará. 

Reconhecimentos justos para quem tem pautado sua existência por princípios éticos, morais e religiosos irrepreensíveis e que coroam o difícil início de sua jornada. Sua origem humilde não permitiu que seu pai pudesse custear-lhe os estudos em Belém, o que não se tornou obstáculo intransponível para quem já possuía objetivos definidos. Você, meu caro Célio, deve recordar-se da viagem que empreendeu, na 3ª classe (a mais barata) em um dos navios da famosa “frota branca” da extinta SNAPP – o Augusto Montenegro – a Belém. A passagem foi adquirida com o produto da venda de sua bicicleta e de seu cavalo. O dinheiro apurado não era de tal monta que permitisse o seu sustento na capital do Grão Pará, mas você logo conseguiu um trabalho como almoxarife no depósito da CIPAB (Companhia Paraense de Abastecimento), que ficava localizado onde hoje funciona o Ministério Público Estadual, na praça Felipe Patroni, ao lado do Fórum Cível de Belém. O exame de admissão ao ginásio, feito no CEPC, obteve pleno êxito. 

O trabalho na CIPAB, por ser braçal, incentivou-o a procurar outros empregos. Fez um teste e foi aprovado na Companhia Miramar de Seguros e, menos de um ano depois, ingressou por concurso público no antigo BANCO MOREIRA GOMES, onde trabalhou por toda a vida meu falecido pai, Manoel Ervedosa. 

Outro concurso público levou-o ao Banco do Brasil S/A – outra coincidência ente nós dois, Célio, porque também tive o prazer de pertencer ao seu quadro de funcionários – onde atuou nas agências de Marabá, Santarém e Belém, aqui sendo lotado na Assessoria Jurídica, por já estar formado em Direito e ficando até aposentar-se, em 1997, no cargo de Supervisor Jurídico do Pará e Amapá. Em 1984 fundou, e ainda é titular, do Escritório SIMÕES Advocacia, especializado nas áreas cível, trabalhista e empresarial. 

Célio Simões de Souza, como vimos, tem uma bela história de vida, tornou-se um devorador de livros, apreciador de bons filmes, estudioso do folclore e dos costumes paraenses, sobretudo o que enriquece a cultura da região Oeste do Estado. Considera-se um bom pescador, conhecedor de todas as espécies fluviais ou marítimas e frustrado por não dominar a arte culinária. 

Seu maior patrimônio, contudo, é a sua família, construída em bases solidamente cristãs. Casado com a pedagoga Fátima Augusta Simões, teve 3 filhos (Célio Augusto, Francisco Cezar e Sérgio Guilherme). Célio Augusto, o primogênito, já lhe permitiu as delícias de ser avô do Francisco Célio, autor de grandes alegrias no momento presente, inclusive a de ser – mais uma coincidência entre nós, meu caro Célio – integrante da enorme, feliz e altaneira “nação rubronegra”. Um flamenguista dos bons! 

Já estou me alongando demais. É bom falar de você, Célio, como bom companheiro e amigo, mas está na hora de encerrar esta saudação.

E o faço conclamando-o a amar este Instituto Histórico e Geográfico do Pará, que o recebe de braços abertos e coração pulsante de entusiasmo, como ele merece e precisa. Tenha por ele a mesma garra, a mesma determinação que constituem características de sua personalidade. Precisamos de confrades que trabalhem pela consolidação desta centenária instituição por onde já passaram as mais fulgurantes inteligências da cultura paraense. Dedique a ele o tempo necessário, contribua com as suas idéias, socialize seus conhecimentos, una-se aos que desejam vê-lo fortalecido e não apenas item para abrilhantar currículo.

Seja bem vindo! 

* Discurso proferido pelo acadêmico Walber Monterio em saudação ao Novo Acadêmico do IHGP – Instituto Histórico e Geográfico do Pará, Dr. Célio Simões de Sousa. 

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