DISCURSO DE POSSE NA PRESIDÊNCIA DA AALO*

José Raimundo Canto

É consabido que a memória histórica dos municípios do interior paraense é conservada, na maioria das vezes, pela tradição oral. Em alguns casos, historiadores, profissionais ou não, tomam para si a escrita, a história e as estórias dessas localidades.

No caso de Óbidos, pelo menos a parte mais antiga de sua história é facilmente encontrada nas obras de Inglês de Souza, José Verissimo, Artur Ferreira dos Reis, mas para isso nos louvaremos dos registros lançados na obra Terra Pauxi, de Francisco Manuel Brandão.

Nosso município é possuidor de um patrimônio arquitetônico invejável na região, com manifestações culturais respeitáveis na área de literatura, poesia, pintura, música, artesanato, que afloram há séculos, com concentração nos segmentos do regionalismo mágico e da ficção histórica, com vasta documentação social que fixa vários aspectos da Amazônia do cacau e da pesca, da região meio selvagem onde a vida é sempre uma luta do caboclo contra o opressor, do homem contra o homem, contra a enchente, contra a seca, mas sempre em favor da vida.

Com este oásis culturais era esperado que os obidenses que sempre valorizaram essas manifestações, buscassem congregar as pessoas que detinham mais afinidade para se criar um órgão de concentração dessas discussões e defesas.

Temos informações de que na década de 60, nosso acadêmico HUGO ANTONIO FERRARI, em seu primeiro mandato de vereador, apresentou um projeto de lei na câmara municipal de Óbidos, criando a primeira academia de letras do município, que não recebeu a merecida aprovação, considerando-se o ‘carinho’ que o governo militar reservava a essas iniciativas consideradas contrárias aos seus interesses.

Esta academia foi criada por oportuna inspiração pessoal do presidente que hoje se despede, que imagino, já respirava este silogeu desde seu berço, eis que nascido em meio familiar no qual foi habituado naturalmente com a  afinidade com escritores, professores, músicos, poetas, mas principalmente por ter nascido e se criado na bela cidade de Óbidos (PA).

Quando o Dr. Célio me falou sobre a sua criação, não foi surpresa, posto que já havia demonstrado iniciativa igual quando éramos advogados do  Banco do Brasil, criando o primeiro Centro de Estudo da Assessoria Jurídica Regional, realizando pelo menos dois seminários de estudos e discussões técnicas da maior relevância.

Aqui na AALO coube ao acadêmico Célio a estruturação da academia no formato que se encontra, deixando-nos com um superávit financeiro para darmos continuidade aos trabalhos que já se encontram delineados.

E quando pensávamos que suas iniciativas estavam concluídas, nos liga avisando que a letra e a música do hino da academia estavam concluídos como presente seu e do maestro Vicente Fonseca para este silogeu.

Mas, pensando bem, todos nós temos a obrigação e o compromisso de deixá-lo mais livre para organizar seu farto material literário e, afinal, brindar-nos com seus livros que já se aguarda há muito tempo.

Das lições deixadas por sua Diretoria, tiramos os ensinamentos de que o ponto fulcral dos membros da academia, antes de tudo é preciso saber defender Óbidos e suas coisas, com ou sem paixão, mas com muito bairrismo.

Sim, com bairrismo, pois isso já era assim desde o século passado, como ensinou José Veríssimo em seu discurso ao celebrar o tricentenário de Belém:

“Das formas do amor da pátria a mais espontânea, mais natural e, direi até, mais legítima, é o bairrismo: o afeto ingênuo, quase inconsciente, ao torrão onde nascemos, onde experimentamos as primeiras sensações, que lembrem onde fica a paisagem que impressionou o nosso olhar móbil de crianças, onde corre o rio cuja água nos batizou e se elevam as árvores a que primeiro trepamos, onde vive a gente que primeiro conhecemos e amamos, onde surgem, após longos anos passados, as primeiras imagens queridas à nossa memória e para onde voltam as saudades dos tempos que não voltam mais”.

Por isso, penso que para integrar esta AALO o acadêmico deve saber defender Óbidos atingindo o coração dos obidenses. Defender com amor, com decência, com ardor, com a dor, com paixão, com compaixão, com qualquer coisa ou argumento com que se possa fazer respeitar aquela terra querida.

Isso é assim porque, no dizer de La Fontaine, “se quiser falar ao coração dos homens, fale de animais, de Deus, e de muita fantasia”.

Assim como a gente, o caboclo pode até ter partido de lá, mas deve voltar e, ao voltar, defender aquela cidade com o coração na ponta do dedo para demonstrar como ela é importante para todos os obidenses.

Senhores, nesta AALO encontramos representantes de todas as áreas onde os obidenses se destacaram, como empresários, geólogos, desembargadores, juízes, advogados, jornalistas, professores, funcionários públicos, escritores, arquitetos, bancários, procuradores de justiça, aposentados, poetas, cartorários, pesquisadores, sem graduação, graduados, mestres, doutores, pós-doutores, sendo que alguns ocupam mais de um lugar nessa profusão de funções e atividades, como a demonstrar quão rica de sabedoria é a nossa gente.

Muitos já têm livros publicados, outros têm tantas poesias e material literário da melhor cepa, que causariam inveja a muitos municípios visinhos, que não se deram conta da grande importância que é preservar e incentivar a cultura local. Contudo, o mais importante é a quantidade e qualidade daquilo que ainda temos em stand by, para ser tornado público e engrandecer ainda mais a literatura obidense.

Mas é interessante registrar que esta ocorrência se estende de forma mais séria e amplamente quando se trata de profissionais que fizeram sucesso. Daquela cidade já saíram Ministros e Presidentes dos mais variados tribunais deste país, membros da academia brasileira de letras, de jornalismo e jurídica.

O objetivo da AALO também tem um olhar voltado para a produção literária dos artistas e literatos obidenses que não fazem parte de nosso quadro, mas continuam produzindo cultura nos mais diversos segmentos, seja em Óbidos ou fora de lá, limitadas apenas à contingências financeiras.

Ainda assim, para este julho já temos previsto o lançamento de mais um livro de D. Chaguita Pantoja, contando a história de Óbidos até 1964. Em parceria com a UFOPA realizaremos o festival de cultura obidense, com inúmeras atividades da área.

Para 2013 será constituída uma comissão para dar continuidade às pesquisas e registros sobre a história de Óbidos pós 1964.

Paralelo a isso, o Ministério Público do Estado vem defendendo com muita ênfase o tombamento de inúmeros prédios públicos e privados, incluindo a nossa própria residência (a que o Presidente Célio se referiu) que mereceu a nossa expressa concordância.

Esse esforço é para demonstrar que o amor por aquela cidade é incondicional, é puro, singelo. Que o diga o acadêmico Dino Priante, que em recente artigo publicado no site CHUPAOSSO, deixou registrado a seguinte passagem:

“Quando descia a Rua Bacuri, que chegava na Farmácia Esculápio, olhava para o relógio Cuco da farmácia, estava próximo de dar a hora, aguardava só para ver o Cuco cantar. Quando comprei minha casa, não sosseguei enquanto não comprei um. Achei em Tubarão-SC”.

Recentemente minha filha Camila visitou Barcelona e localizou azulejos artísticos com números para identificar casas históricas e lembrou de nossa casa de Óbidos, trazendo um para identificá-la.

Meus filhos, a Fátima minha esposa e mais um batalhão de gente adotou Óbidos como a terra do coração, e assim se comportam sem desmerecer nenhum pouco aos chupaossos mais exigentes.

Por isso as referências do presidente Célio ao nosso apego à nossa terra como a reforma do “casarão das Sousa”, dos descendentes de Inglês de Sousa, e do esforço que fazemos para a preservação da chácara, “Geretepaua”, nada mais é do que o resultado do esforço conjunto de toda a minha família.

Todos os nossos filhos nasceram em Belém e assumiram a cultura obidense como sua sem qualquer forçação de barra e participam de todos os movimentos culturais, religiosos, profanos daquela terra. Um deles já casou com uma autêntica obidense – a Laurinha, amor de infância amadurecido ao longo de diversas festas no arraial de Nossa Senhora Santana, de Carnapauxis, e fizeram questão de casar na igreja de Santana em Óbidos, com festa na ARP, que é a nossa Assembléia Recreativa Pauxis.

Agora iniciamos a terceira geração de minha família com a chegada de nosso neto José Artêmio, e para não fugir às origens já ganhou seu dominó, que é a vestimenta tradicional dos anônimos foliões do carnaval obidense.

No próximo carnaval ele já estará por lá, como novo fobozinho.

Enfim, sem ser ministro, me sinto bem no papel do “Indiozinho”, do poema do Ministro Carlos Ayres Britto, Presidente do STF, em sua Ópera do Silêncio:

“Hoje me chamam de ministro

E eu decido sob respeitável toga.

Meu coração, porém, não mudou nada.

Continuo um romântico indiozinho

a remar sua piroga

E a cismar por entre as árvores, à noitinha,

Vendo em cada pirilampo e em cada estrela

Os faiscantes olhos da namoradinha”.

Senhores presentes: Os acadêmicos da AALO me concederam o privilégio de presidir esta academia e, por isso faço esta saudação, mas, assim como Machado de Assis, também não quero conquistar o direito de ver a esta AALO como a “glória que fica, eleva, honra e consola”. Eu não tenho este direito. Não a posso ver, nem a quero ver, como local de fruição de glórias, que não as tenho.

Vejo-a antes como uma instituição cultural obidense, onde pelo discurso e pela criação literária se pensam e se representam Óbidos e a condição humana. Para isso espero contar com a disposição e apoio não só desta diretoria, cujos membros confiaram em mim para integrá-la, mas de todos os acadêmicos, posto que sempre demonstraram essa disposição.

Gostaria sim de contribuir com a Graça de Deus para promover o diálogo entre seus membros e a sociedade obidense, por entender que tal diálogo poderá ser benéfico para a vida cultural daquela cidade. Sonhamos, e esta diretoria não medirá esforços para conseguir uma sede para AALO lá na cidade e montar uma linda biblioteca onde as pessoas possam degustar e respirar todos os tipos de culturas, com a realização de oficinas visando treinar aqueles que se interessarem em produzir cultura de excelente qualidade.

Como escreveu Guimarães Rosas “Se viemos do nada, é claro que vamos para o tudo”. A criação desta AALO, pelo Célio, nos permitiu sonhar assim, se conseguirmos já será o suficiente para a felicidade de nossa diretoria e de minha família.

Por derradeiro, registro a linda música de Maria Rita onde se canta que a alegria quem dá é Deus e que a tristeza é a gente quem faz. Deus me deu a alegria desta hora, eu evitarei a parte da tristeza, pois quero ter sempre presente nesta Presidência a lição de dom Helder Câmara, posto que “é graça divina começar bem. Graça maior, é persistir na caminhada certa. Mas a graça das graças é não desistir nunca”.

Ainda uma vez, obrigado meu Deus, de todo o coração.

*Discurso de José Raimundo Canto proferido na ocasião de sua posse como presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos para o bienio 2012/2013.

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