Discurso de Célio Simões na posse da nova diretoria da AALO

Célio Simões de Sousa

Senhores e senhoras:

Apenas uma alegria pode superar aquela que tive quando fundei a Academia Artística e Literária de Óbidos em 2009. É a que neste momento sinto de confiar o seu destino à nova Diretoria hoje empossada. Ao fim do meu mandato como primeiro presidente do Silogeu, cumpre-me passar o comando ao confrade José Raimundo Canto, para que dê continuidade a uma idéia que ousei conceber com o objetivo de retribuir o que os obidenses fizeram por mim em termos de lastro cultural.

Em Óbidos, dei os primeiros passos da alfabetização com minha querida tia e patrona Córa da Silva Simões, prosseguindo nos estudos elementares com a professora Glória Corrêa Pinto, tendo experimentado também o vigor da palmatória do professor Manduca Valente, para mais adiante estudar no Grupo Escolar José Veríssimo e aprimorar-me com os mestres do Ginasio São José, as duas últimas, instituições públicas de ensino da minha cidade.

Quando aos 18 anos resolvi radicar-me em Belém com vistas aos bancos universitários, a UFPa acolheu-me também gratuitamente no casarão do Largo da Trindade, até que me tornasse advogado. Vitorioso na profissão que abracei, passei a me sentir em débito de gratidão com meu torrão natal, pois quem na verdade custeou meus primeiros estudos foi o povo. Sempre sonhei em retribuir esse passivo. Óbidos, portanto, e por extensão o  Pará, são os destinatários desse sonho que é a Academia, efetivo contributo ao conceito que temos de cultores da intelectualidade na Amazônia.

Fundada em 27.03.2009, A Academia congrega obidenses ou pessoas ligadas à “Terra dos Pauxis” como se natos também fossem. Tem nosso Instituto Cultural se destacado como propagador da literatura regional. Seus integrantes repercutem escritores consagrados, respeitadas as proporções, como Inglês de Souza, José Veríssimo, Francisco Manoel Brandão, Ildefonso Guimarães e Saladino de Brito, quando exprimem em seus belos escritos as crenças, o linguajar, o modo de vida, os costumes e a história da nossa região.

Ao longo de sua curta existência, a Academia não se limitou a incentivar, prestigiar ou divulgar a produção das artes e das letras obidenses. Foi partícipe dos mais diversos eventos culturais do Pará. Coerente com sua atividade fim, promoveu concurso literário entre a classe estudantil de Óbidos, assim o reconhecimento às personalidades que se empenharam em elevar a educação, a arte, a música, o folclore e o ambientalismno, outorgando-lhes com justiça, a cada mês de Julho, o Diploma e a Medalha “CIDADE PRESÉPIO”.

Pela generosidade de meus pares, fui eleito com os demais membros da primeira diretoria por aclamação, fato noticiado com destaque no jornal O LIBERAL, de 12.04.2009 (edição de domingo). As cadeira simbólicas do Silogeu ainda estavem incompletas, porém outros nomes se somaram aos pioneiros e todos, por disposição estatutária passaram a ostentar o título de fundadores, desde que empossados nas memoráveis sessões solenes do dia 25.06.2009 neste auditório, cedido pela Desa. Francisca Formigosa, então Presidente da Corte, com a brilhante participação da Guarda Municipal, sob  o comando da Dra. Ellen Margareth, e naquela realizada em Julho/2009, no prédio da Secretaria de Cultura e Turismo em Óbidos.

Por feliz coincidência e especial mercê de S. Exa. o Desembargador José Maria Quadros de Alencar, esta solenidade, que marca o fim de meu mandato, ocorre no mesmo local da minha posse, esta augusta Casa, onde como servidor da Justiça que também sou, advogo ininterruptamente há 36 anos.

Nada fiz sozinho. Contei com a ajuda material de muitos, sugestões de outros, críticas construtivas de mais alguns e com o talento do confrade e engenheiro Luiz Arthur Brito da Silveira, que deu forma à bela medalha que ostentamos. Pelo muito que me ajudaram, registro minha gratidão à Diretoria e ao Conselho Fiscal do mandato que ora se encerra: José Edílsimo Eliziário Bentes; Maria José Tavares Caluff; Célio Augusto Oliveira Simões; José Raimundo Canto; Bella Pinto de Souza; Carlos Antônio Barbosa da Silva; Ademar Aires do Amaral e Arlena do Amaral Savino, que comigo ombrearam nessa agradável missão.

Eleitos os dirigentes que hoje empossados, verificou-se a substituição de quase todos os membros da administração anterior, o que evidencia salutar renovação, pois os que ora assumem as rédeas do Sodalício o engrandecerão, pela respeitabilidade, o conceito e o prestígio que possuem.

Embora, como dito antes, o Silogeu tivesse surgido incompleto (a instalação deu-se com 33 titulares) os Estatutos definem em 40 suas cadeiras simbólicas. Para completar seus quadros recordo os imortais que chegaram depois:

Na solenidade de 24 de Julho de 2009 em Óbidos, ingressaram, ainda com o título de fundadores: Francisco Alfaia de Barros (Cadeira n.º 18), Hugo Antônio Ferrari (Cadeira n.º 22) e Luiz Arthur Brito da Silveira (Cadeira n.º 28), em sessão realizada no auditório do Palácio da Cultura José Veríssimo, nosso antigo e historicamente famoso Quartel do Exército.

No dia 23 de Julho de 2010, tomaram assento os confrades: Cláudio Jorge Bentes de Castro (Cadeira n.º 37), Deodoro Pedro de Oliveira Filho (Cadeira n.º 9) e Shirlei Guimarães Florenzano Figueira (Cadeira n.º 14), novamente em inesquecível festa no auditório do vetusto Quartel, das janelas de onde se tem sedutora visão da Serra da Escama, no alto da qual dormita a Bateria Gurjão e seus canhões Armstrong’s, relíquias do 4.º Grupo de Artilharia.

E ainda vaga a Cadeira n.º 40, conquistou a imortalidade literária no dia 25.07.2011 seu membro mais moderno, o escritor Fernando Pimentel Canto ocorrendo a posse na Escola São José, de tão gratas recordações para seus ex-alunos, como parte dos festejos de seu centenário.

Preenchidas todas as cadeiras em meados de 2011, será possível, doravante, o registro da entidade em Cartório, a obtenção do CNPJ na Receita Federal, o reconhecimento como de utilidade pública pela Câmara Municipal de Óbidos e pela Assembléia Legislativa do Estado, a celebração de convênios para obtenção de recursos, a sonhada sede própria, metas ambiciosas a serem enfrentadas – e tenho certeza serão alcançadas – pela nova Diretoria.

Cumpre registrar que em Abril/2009 foram acolhidos como Membros Honorários, figuras de prestígio como o Ministro Rider Brito, ex-Presidente  do Tribunal Superior do Trabalho, o médico e ex-Conselheiro Presidente do Tribunal de Contas do Estado Dr. Manuel Ayres e o cientista e professor Dr. Podalyro Amaral de Souza; e em Julho/2009, a educadora Maria Iza de Souza Prado e a pesquisadora Prof.ª Idaliana Marinho de Azevedo.

E na categoria de Grandes Beneméritos, a escolha recaiu no historiador Hélcio Amaral de Souza, na Desembargadora do Tribunal de Justiça do Estado Sônia Maria de Macedo Parente, na Desembargadora Federal do Trabalho e ex-Presidente da Corte Trabalhista, Dra. Francisca de Oliveira Formigosa, no ex-Reitor da UNAMA, Prof.º Edson Raymundo Pinheiro de Sousa Franco e na memorialista e escritora Edithe Carvalho Vieira, justa homeagem pelo apego de todos eles à terra querida e de tudo o que fizeram para engrandecê-la.

Vale ressalvar que o Prof.º Edson Franco, apesar de não ser obidense, ou jamais ter morado lá, quando ocupou a presidência da Academia Paraense de Letras, prestou-me decisivo apoio e incentivo à fundação do Silogeu Pauxis, como aliás fez com todas as demais academias e movimentos culturais que surgiram durante sua profíqua gestão.

Conquanto possa parecer pouco, nessa curta trajetória, a Academia procurou  homenagear personalidades, a maioria delas não conhecidas ou quase esquecidas da atual geração e dos poderes públicos, o que foi feito não com pouco esforço, dada a dificuldade para localizar alguns, seus familiares ou os descendentes dos que se foram, outorgando-lhes o Diploma e a Medalha “Cidade Presépio” – Categoria Honra ao Mérito – premiando-os por dedicarem suas vidas ao folclore, às letras, ao artesanato, ao ambientalismo, à música e ao carnaval obidenses – o carnaval do “Mascarado Fobó”.

Permito-me, por não serem muitos e sem o risco de cansar a seleta platéia, citar esses abnegados, dignos dos nossos aplausos. Receberam a láurea, em Julho/2009: Antônio Fernandes; Dídimo Augusto Ferreira; Maria José Bentes Ferreira; Mário Prata de Aquino e Miguel Venâncio.

Em Julho/2010: Marcírio Sigueira Assunção; Valdir Marinho de Matos; José Cardoso Ayres; José Carlos Ferrari e dona Maria Ramos, esta, alma e cérebro dos folguedos juninos. E em Julho/2011: Manuel Valente do Couto; Eduardo Henrique Dias; Cezarina das Graças Silva Aquino; Ana Maria Tavares Chocron e Carlos Ricciardi Silva.

Além das homenagens aqui referidas, nossa administração instituiu o prêmio “INGLÊS DE SOUSA” destinado ao vencedor do concurso literário no gênero crônica, tendo como tema “CAPELA DO BOM JESUS, MEMÓRIA CABANA, PATRIMÔNIO NOSSO”, restrito aos alunos da rede municipal de ensino, com o objetivo de aprimorar-lhes o conhecimento sobre nosso passado e sensbilizar as autoridades religiosas de Óbidos a franquear o acesso do povo ao orago do Bom Jesus, símbolo da resistência da gente obidense contra a invasão dos cabanos, sob o comando dos admiráveis padres Raimundo Sanchez de Brito e Antônio Manoel Sanchez de Brito. Referido certame, após o crivo da Comissão Julgadora, teve como vencedora a estudante Geise dos Santos Mamede, que recebeu, além do diploma, o prêmio de R$-1.000,00 (um mil reais).

Especial destaque desejo dar à eleição, pela vontade dos nossos confrades, do escritor, poeta, cronista, acadêmico e radialista maranhense Carlos Alberto Lima Coelho, membro do Instituto Histórico do Maranhão, como o primeiro correspondente cultural da AALO fora do Estado do Pará, ele que tem propagado nossa história e costumes, através das crônicas que Carlos Antônio Barbosa da Silva divulga em seu site em São Luís do Maranhão.

Realizando velha aspiração, ultimamos o BLOG da AALO, magnífico espaço de convivência intelectual de seus membros, com o prestimosa ajuda dos imortais João de Jesus Farias Canto e Aucimário Santos, ambos nomeados pela Resolução n.º 001, de 31.05.2011 da Presidência, sem o que decididamente eu nada faria, claudicante que ainda sou nos misterios da informática.

Sei que poderia ter realizado mais, porém razões supervenientes não me permitiram, pois minha recondução como juiz da Corte Eleitoral do Pará bem no meio do meu mandato, causou-me uma repentina sobrecarga de trabalho. Mas tenho certeza que procurei fazer o melhor e dou-me por satisfeito pelo fato de propiciar à minha cidade algo que ela nunca teve: a sua Academia Literária.

Nesse sentido, vencendo natural constrangimento, permito-me transcrever a mensagem que recebi do escritor e confrade Hugo Antônio Ferrari, uma das melhores pessoas que conheço, respondendo ao convite que lhe fiz para abrilhantar com seu reconhecido talento os quadros da novel agremiação:

“Meu caríssimo Célio:

Teu convite muito me honrou. Vou tentar, da melhor maneira, desempenhar essa missão.

Concordo que tive o sonho, porém não bastou. O teu trabalho, a tua liderança, o teu prestígio, contribuíram grandemente para a criação da AALO, fato que foi de suma importância, sobretudo pela tua condição de conceituado advogado, além do grande circulo de amigos que tens, que, por certo, muito ajudaram para o êxito desse Projeto, além dos demais confrades que somaram esforços para essa implatação, culminando com a belíssima e histórica solenidade de sua recente fundação em Belém.

Esse é o meu testemunho!

Parabéns mais uma vez e um forte abraço do amigo e admirador.

Hugo Ferrari”

Meu confrade Ademar Amaral sentenciou: “Tua missão está cumprida”. Se bem ou mal, acrescento eu, só o tempo dirá. Peço a compreensão dos acadêmicos que solicitaram minha permanência por mais dois anos, como permite o Regimento Interno, porém não sou afeito a reeleições. A experiência, inclusive política, está a demonstrar que o segundo mandato tende a gerar acomodações, e no mais das vezes não fica à altura do primeiro. Ademais, o Silogeu possue quadro altamente qualificado e apto a ditar seus novos rumos, como os ilustres imortais hoje empossados. A Academia, vale lembrar, nunca será uma obra acabada, exigindo permanente aprimoramento.

No apagar das luzes do meu mandato, em 15.02.2012, ocorreu-me presentear a AALO com seu Hino Oficial. Escrevi a poesia, musicada por esse consagrado compositor, o Desembargador Vicente Fonseca, ele que de fato e de direito tornou-se “Amigo da Academia” e credor de nossa gratidão. Estendo tais agradecimentos ao Coral e Orquestra Jovem “Maestro Wilson Fonseca”, na pessoa do estimado “Tinho”, gênio como o pai, com quem tive a honra de atuar, junto com José Wilson Fonseca, Waldir Macieira, Miguel Augusto Campos e o cartunista Luís Alves, no “Jornal da AABB” de Santarém nos idos de 1970/1971, periódico no qual subscrevíamos nossos textos sob pseudônimos. Eu, assinando-me “Curicão” (apelido herdado nos treinos do América, time de futebol do seu Moraes) e mestre Isoca, adotando o nome indígena “Nurandaluguanburabara”, que seus irreverentes pupilos, a boca pequena e bem longe dele, pronunciavam jocosamente como “pulando-nú-na-guanabara”!

Assumo doravante a condição de ex-Presidente e passo a membro nato da Diretoria com direito a voz em suas reuniões, caso alguém tenha disposição e paciência para me ouvir. A pretexto de proferir um discurso de despedida do cargo, fiz na verdade um relato da trajetória da Academia, em linguagem telegráfica, que espero sirva para seus assentamentos e os primórdios do Sodalício não se percam com o passar dos anos.

Desejo êxito ao confrade José Raimundo Canto, merecidamente eleito, por sua reconhecida liderança, arrojo e idealismo. Incoercível mecenas das artes obidenses, ele não revela por timidez, porém sei do seu apoio material aos talentos da nossa terra, custeando edição de livros e CD’s, como aquele do nosso estimado cantor e compositor Eduardo Dias, denominado, sem qualquer trocadilho, “O CANTO OBIDENSE”.

A meu sentir, está ele credenciado ao exercício da presidência, não só por tais virtudes pessoais, porém pela demonstração de apego ao que temos de mais emblemático – nossa arquitetura portuguesa – fato provado quando adquiriu e restaurau às suas expensas o “casarão das Sousa”, dos descendentes de Inglês de Sousa, citado como relíquia arquitetônica por Jussara Derenji, em seu “Caderno de Arquitetura 1”, da série Arquitetura da Amazônia, sem embargo do esforço que faz para a preservação da sua fazenda “Geretepaua”, jóia da natureza incrustrada a montante do Amazonas, com sua densa vegetação, rica biodiversidade e diversificada fauna aquática, inclusive de preciosos quelônios.

Oxalá alguém, sensibilizado por esse edificante exemplo, possa vir em socorro do Lago Pauxis, cujas águas amenizam o calor das noites obidenses, para livrá-lo da completa ruína que o ameaça, em razão do lixo despejado das embarcações e de sua ocupação desordenada, inconsequente e irresponsável.

Agradeço à minha esposa Fátima Augusta pela preciosa e incondicional ajuda e a meus filhos pela tolerância, especialmente meu primogênito e Secretário-Adjunto Célio Augusto Simões, que em detrimento de suas muitas tarefas, chamou a si a responsabilidade de cuidar do intercâmbio com as co-irmãs, assim da divulgação de notícias e comunicados, mitigando sobremaneira meu trabalho. Por igual, sou grato ao ilustre prefeito obidense Jaime Silva pelo apoio financeiro durante minha gestão e a todas as pessoas que de alguma forma me ajudaram, cujos nomes não arrisco citar para evitar o deslize da omissão.

Congratulo-me com todos os diretores e conselheiros da gestão que se inicia, rogando-lhes apoio ao Presidente Canto, para possibilitá-lo levar a bom termo sua nobre missão. Oscar Wilde sentenciou que “as piores obras são sempre as que são feitas com as melhores intenções”. Peço vênia para divergir do mestre irlandês, pois não é assim que me sinto hoje, pela continuidade desta magnífica obra que é a Academia, surgida do zero absoluto, porém já transformada num marco indelével na história da cultura obidense.

Concluo citando o pensamento de Mahatma Gandhi que tem sido uma espécie de norte em minha vida: “Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho”.

Pela falta de tempo de ser breve, peço desculpas.

Pela atenção de todos, muito obrigado!

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