O DRAMA DA CHEIA

Célio Simões

Zé Lopes olhou desolado a imensidão liquida, inspirou profundamente, fazendo aquele gesto tipicamente latino de botar as mãos na cintura, apertar os olhos e balançar a cabeça… Realmente, para ele nada restava, a não ser arribar.

Equilibrado precariamente na cerca meio submersa, ele contemplava aquele cenário triste, sentindo um nó apertar-lhe a garganta. É que a enchente chegara!

Do seu terreno de várzea conseguido à custa de suor e privações, sobrara a copa dos igapós, o caule retorcido das mungubeiras, os vestígios da roça perdida. Zé previra a enchente e sabia do seu tamanho. Achara ovos de uruá no alto do mourão que fincara para amarrar a montaria. O patinho d´água com seu canto agourento não calara durante todo o verão e a lua estivera sempre tombada para o lado esquerdo no dia de Ano Novo. Nada, portanto, era surpresa.

Os boatos iam e vinham. Falavam de fortes chuvas lá pras bandas do Acre e o sol teimando em permanecer aberto sobre um tal de Andes (?), derretendo muito gelo. Ele lembrava bem o dia em que fora buscar as vacas no pasto, a ventania espalhando a cabeleira dourada do taripucú, quando tudo ainda era alegria e tranquilidade. Voltou com uma preocupação: o espraguejado do acauã, peito estufado no alto do paricazeiro, cantava compulsivamente, chamando o aguaceiro.

Zé improvisou a maromba. Esta lhe valeu a salvação das minguadas reses, ao todo meia dúzia de vacas e um mamote. Do pangaré sobrou a ossada no campo, transmudando-se em fogo-fátuo, abatido pelo ataque traiçoeiro da surucucu. O que lhe restava estava ali, um lote esquálido e faminto, olhando esperançoso a premembeca que flutuava descendo o Amazonas em ponto morto. Não havia como salvá-las.

O capim rareava e o tempo perdido em conseguir alguns peixes, fisgados ao fio da correnteza e trazidos na surrada igarité, tirava-lhe a chance de socorrer a própria família. Esta, coitada, nem era bom pensar. O assoalho do barraco fora suspenso e eles andavam curvados, espremidos entre o teto de palha e o chão de pranchas de paxiúba, vivendo o seu dia a dia miserável e ignorante, aferrados à reza diária e confortadora.

Nada obstante, Zé Lopes os amava. Sua mulher, a outrora “ajeitada” Joana, estava transformada pela gravidez, enjoando constantemente. A parteira já dera seu veredito: “Daqui a três meses, mais um curumim vai chegar, se Deus quiser”. Zé ficou matutando que seria mais um para chorar de fome, como as outras três irmãs e o irmão. Joana, mesmo levando a tiracolo a imensa barriga (seriam gêmeos?), rebocando nas saias as cuiantãs truíras e seminuas, era um braço com que ele sempre contava. Bem ou mal, nunca lhe faltara disposição para cuidar da “chepa”, remendar a roupa, preparar o glorioso caribe e até dar um adjutório na estrovação do anzol, no preparo do espinhel.

Zé sentiu-se só, jogado naquela beira de rio, sem dinheiro, sem terra, sem remédios, quase sem comida e sem esperança.

Sem esperança? Não era então essa que morre por último? Por que iria perdê-la quando mais dela precisava, único bem que o gigantesco rio lhe poupara? Crispou a face com expressão determinada: jamais cairia sem lutar, nem permitiria aos vizinhos surpreendê-lo derrotado, no fundo do poço! Já demonstrara sua garra no cabo do terçado, quando transformara em pasto a capoeira brava, reduzindo a pó nas cinzas da coivara; sentindo na pele a inclemência do sol e das terríveis formigas de fogo brotadas das manhouranas. Iria mudar de vida. Ainda era novo e poderia recomeçar de modo menos sofrido, labutar em algo que não fosse o permanente recomeçar permeado de medo e sobressalto. Aquilo – benza Deus – não era vida para cristão! Já bastava a lembrança da descomunal cheia de 1953, que de uma chuvinha besta virou um toró de mais de um mês, inundou os tesos, devastou os rebanhos e fez caboclo virar pedinte na cidade. E o que dizer daquela de 2009, o maior dilúvio que a Amazônia vivenciou nos últimos 50 anos?

Quem dera fosse todo o tempo verão! Zé apertava os olhos para ver como num filme a fartura de frutas, os ovos de tracajá, o leite fresquinho, o piracuí e o peixe abundante. Pasto nativo abundante para o gado, a perder de vista.

Mas aí vinha o inverno, o inverno trazia a cheia, a cheia trazia a fome, a fome trazia as dívidas. Porém seria aquele, o último ano de penúria. Um plano ousado teimava em sua cabeça. E se não desse certo? Mas daria, tinha que dar…

Caso o aguaceiro deixasse, venderia suas rezes para o primeiro comprador, depois do reparador pasto da vazante. Aquele terreno provavelmente perderia, pois o banco, tão solícito na hora de emprestar a grana, não contemporiza com quem deve. Mas não faria mal. Talvez só com o dinheiro do gado… Bem, com esse dinheiro é que faria o “milagre”.

A menos de uma hora de viagem de barco estava Óbidos e ali certamente acharia trabalho. Nunca se imaginara naquela vida de cidade. Seria custoso partilhar seu espaço com carros, ter que andar de sapato, aguentar o barulho do molecório próximo aos colégios e, acima de tudo, o suplício de saber que a parece de sua casa é também a parede do vizinho. Ainda por cima, teria que pagar luz e água, principalmente esta, que no momento o Amazonas lhe impunha de graça. Em contrapartida, naqueles mesmos colégios barulhentos seus filhos poderiam estudar, aprender ao menos escrever o nome. Sua Joana poderia lavar roupa de algum “barão” e quanto a ele… bem, ele acharia trabalho, disposição não lhe faltava – quem sabe fazendo carreto ou como braçal da prefeitura, na capinação de rua, agora que a lida com a castanha tinha fracassado e emprego andava vasqueiro.

Bem que tentou arranjar emprego no dia do Círio de Sant’Ana, quando falou com o deputado que estivera em sua casa no ano anterior mendigando voto para se reeleger, prometendo-lhe mundos e fundos. O pilantra fez que não o conheceu, desconversou, disse que não podia ajudar, que nem mesmo se lembrava dele. Ficou arrasado.

O certo é que seu compadre Manoel, conhecido das arpoações de pirarucu como Manduca “Mãe do Sono”, estava feliz da vida vivendo por lá, fazendo não se sabe bem o que, ele e seu filho mais velho de 13 anos, que de tanto estudar ficou bamba na tabuada e já dava “quinau” em gente grande, sem ligar para enchente, gado ou fome. E olha que o Manduca, salvo sua disposição como pescador, era até meio indigno para outras tarefas, tanto que entre uma e outra tarrafeação, vivia escornado pelos cantos tirando uma pestana, daí o apelido. Há dois anos ele abandonara a várzea, foi pra cidade e nunca mais pensou em voltar. Se com aquele “disinfeliz” dorminhoco dera certo, porque não daria com ele, que não enjeitava serviço?

Lá no bairro da Cidade Nova, que o prefeito da época criou para moradia de gente pobre aterrando impiedosamente o igarapé do Juncal, compraria uma barraca. Depois levaria a família, trabalharia que nem jumento de verdureiro, mas educaria os filhos. Seu caçula – aquele que ainda estava na barriga – não iria sofrer como os outros. Seria livre para brincar em terra firme, longe das cobras, das sanguessugas e das dolorosas mordidas das formigas tracuás. Olhou novamente a cidade, na contraluz da tarde que se findava. As torres da Catedral de Sant’Ana, como que espetando o céu, faziam redobrar sua fé da padroeira, a quem dirigiu muda e emocionada súplica. Concordasse ou não Joana, aquele plano tinha que ser tentado. Fugir para a cidade para não morrer à míngua, era a saída que lhe restava. Olhou sua própria imagem refletida na água. Vestia andrajos. Haveria de dar certo.

Por entre a chiadeira asmática do velho rádio de pilha, outro salvado da enchente que já lhe arrebatara a parabólica, distinguiu os suaves acordes da Ave-Maria, inspirando a quietude das seis horas. Tornou  a olhar e viu Joana aproximar-se, andar arrastado, escolhendo aonde pisar no precário madeirame. Notou algo de estranho naquela fisionomia abatida que um dia achara bela. Algo de anormal acontecera.

– Zé, meu velho, os meninos tão com febre alta e o corpo sarapintado. Acho que é catapora. Antes que esta maldita enchente mate, vende as vacas para que a gente cuide deles.

Zé Lopes ficou cabisbaixo. Esmagado por mais aquele imprevisto, torturado pela ideia de permanecer ali sabe-se lá por quanto tempo mais, deixou escapar um suspiro profundo. Levantou-se, olhou em torno como que procurando alguma coisa e meio vacilante tomou o rumo da barraca, na qual entrou agachado através da ponte tortuosa.

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