RETRATOS E FATOS DA LITERATURA OBIDENSE

 Célio Simões (*)

 Após uma existência mais de três vezes secular, nos dias 20 e 21.07.2012 através da I FECIMA (Festival de Cultura, Identidade e Memória Amazônica) Óbidos será transformada em uma espécie centro regional de estudos dos fatos que marcaram de forma indelével sua extraordinária literatura.

Isso seria, talvez, impossível de concretizar com êxito, se os promotores do evento tivessem concebido a reunião para esmiuçar quaisquer outros temas clássicos, embora importantes – como saúde, saneamento, segurança, habitação – cuja legitimidade emanasse de posições sedimentadas em políticas públicas nos três níveis de governo e apenas mutáveis, na essência, no curso das campanhas eleitorais ou por processos violentos ou revolucionários. Se assim fosse, o debate sobre tais conjunturas melhor estaria se limitado ficasse ao conhecimento dos técnicos instalados nos gabinetes das velhas repartições públicas, testemunhas prováveis do lento e distorcido processo de aperfeiçoamento que sempre tiveram.

O encontro objeto deste despretensioso estudo destina-se, entretanto, ao mais palpitante dos setores do conhecimento humano, aquele cuja autonomia é tão antiga e cuja paixão que desperta é tão notória, que não importa em leviandade afirmar que sem conhecer a tradição ou a criação intelectual dos povos, ninguém será capaz de entender seus modos, costumes, crenças, vultos, personalidades e tradições.

Nos países da mais vetusta tradição literária, a situação difere muito do que vemos no Brasil, nas suas unidades federativas, onde a pesquisa e a leitura de obras, clássicas ou não, foram relegadas a segundo plano e em muitos casos praticamente abolidas, em nome de uma sistemática de ensino que inova nos métodos mas tropeça nos resultados.

Diria eu, por essa razão, que a iniciativa que levou ao encontro previsto para os dois dias de julho, quando se fazem ouvir e sentir na cidade os suaves cânticos de louvor e se vive a magia da festa de Sant’Ana, pode ser minimamente classificada de audaciosa, pois que os seus participantes vão tomar ciência de fatos, situações e realidades conhecidos e desconhecidos, discutidos e discutíveis.

Não se pode falar, assim, da literatura como alguma coisa construída; sua estrutura permanece longe de estar acabada, pois novas produções do intelecto a renovam diuturnamente; ela se desenvolve, de forma continuada, sem que haja encontrado fórmulas definitivas, inclusive porque desperta esperanças superiores às que até agora conseguiu satisfazer.

Desde quando sobre a Terra apareceu, o homem incessantemente a ocupa, trabalha e por vezes a disputa ferozmente, relatando suas aventuras pretéritas em registros muitas vezes toscos, que magnificamente alcançaram gerações e gerações de descendentes, até atingirem o status de ciências humanas como a história, a geografia e a antropologia, por exemplo. Em Roma, o Digesto (do latim digerere ou “pôr em ordem”), do tempo do imperador Justiniano é uma compilação de normas de jurisconsultos clássicos que influenciaram governos, pretórios e a estrutura judicial e jurídica de países os mais desenvolvidos.

Em um dos seus fragmentos os (bons) advogados criminalistas dos dias atuais vão buscar, em socorro de seus argumentos de defesa em certos delitos de excesso culposo, a razoável justificativa do “ímpeto da justa dor” concebida pelo jurista Papiniano (“difficilimum est iustum dolorem temperarem”). Tornou-se aquele tipo de literatura acadêmica que sobrevive desde a mais remota antiguidade, resistindo às transformações sociais que de alguma forma nela se espelharam, como o Renascimento, a Revolução Francesa e todas as codificações dos séculos subseqüentes à sua genial concepção.

Convém notar, entretanto, que as obras de famosos autores nacionais ou regionais passaram a ser classificadas, para efeitos didáticos, nos movimentos literários propositadamente ou involuntariamente vividos por cada um desses mesmos autores. Conceitualmente, a literatura é, para os críticos atuais, considerada como profundamente integrada ao drama humano, à própria vida. Assim concebida, a tradição literal de um povo necessariamente deve abordar sua própria história, suas fraquezas, suas derrotas, frustrações, vitórias e sublimidades. Deve ser, em resumo, o registro da trajetória mental de um povo, artisticamente considerado, no dizer do professor Cândido de Oliveira.

Desde o Brasil colônia, nos séculos XVI e XVII, inaugurada pelos padres jesuítas, temos a fase do Romantismo, a prosa do Realismo, onde brilhou Machado de Assis, o Parnasianismo onde se destacou Olavo Bilac, o Modernismo de Oswald e Mário de Andrade e o Simbolismo, este, reunindo uma plêiade de gênios dentre os quais, para nosso orgulho, o respeitado e carrancudo conterrâneo, crítico literário nacionalmente famoso José Veríssimo, que escreveu Quadros Paraenses (1877), Estudos Brasileiros (1894), Estudos de Literatura Brasileira em seis volumes, talvez a mais completa obra do gênero de seu tempo (1910).

Outro ilustre obidense, Herculano Marcos Inglês de Sousa, diplomou-se em Direito pela Faculdade de São Paulo, em 1876, foi professor da Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, presidente do Instituto dos Advogados Brasileiros, deputado federal e presidente das províncias de Sergipe e Espírito Santo. Escreveu “O Cacaulista” (1876); “História de um Pescador” (1876) e “O Coronel Sangrado” (1877). Ganhou indubitável projeção com “O Missionário” (1891), obra precursora no ‘naturalismo’ em nossas letras, onde descreve a vida em sua pequena cidade no Pará, pondo em relevo em detalhes, a natureza e as corriqueiras cenas regionais. Além de jurista, foi banqueiro, professor, jornalista, romancista e contista. “Contos Amazônicos” (1892), de sua autoria, é um respeitável documento sócio-político da região amazônica da época, como também a história do embate entre o homem e a natureza selvagem.

Dos três paraenses que fundaram a Academia Brasileira de Letras, dois eram obidenses, justamente Veríssimo e Inglês de Sousa. Trata-se de fato importante, incontestável, público e notório, haja vista o que foi divulgado no jornal “O LIBERAL”, o maior formador de opinião do Estado, na recente edição de 15.06.2012 (sexta-feira), caderno “Magazine”, na coluna do jornalista Bernardino Santos: “PARAENSES – Para rememorar, não custa dizer que dois escritores paraenses, por sinal, de Óbidos, foram os fundadores da Academia Brasileira de Letras. São eles José Veríssimo e Inglês de Sousa”, daí porque, na medida em que a I FECIMA, vencendo o período embrionário de estímulo às letras pauxiaras concebido a partir de 2009 com a fundação da sua Academia Artística e Literária, ingressando em uma fase propriamente experimental, Óbidos constitui, pelos inegáveis valores da intelectualidade que a fez famosa, o lugar propício para o conclave e uma espécie de laboratório ideal para eventos desse gênero.

Se realmente a literatura é o registro da trajetória mental de um povo”, convém lembrar, por imprescindível, que fizeram esse mesmo registro autores de nomeada de ontem e de hoje, como o historiador Arthur Cezar Ferreira Reis, Ildefonso Guimarães (o mais festejado ficcionista paraense), Francisco Manoel Brandão (folclorista de méritos), Francisca das Chagas Simões Pantoja, Dom Floriano Loewenau (com suas brilhantes anotações sobre a vida no Baixo Amazonas no período de 1903 a 1953), Jussara Derenji (e sua obra sobre nossa rica e maltratada arquitetura), a professora Idaliana Marinho de Azevedo e seu monumental “PUXIRUM”, um relato fiel dos fatos e acontecimento vistos pela ótica dos negros do Trombetas, do Curuá, do Silêncio e do Matá, o mestre da narrativa Ademar Amaral (1.º colocado no prêmio de literatura da Assembléia Paraense em 2007, com o conto Estirão do Sem Fim, afora “Catalinas e Casarões”) e prestes a lançar seu primeiro romance ‘SEMENTES DO SOL”, Dino Priante, Carlos Antônio Silva e sua crônica irreverente, Bella Pinto de Souza e sua prosa infantil, Deodoro Oliveira, a pesquisadora e escritora Marilene Barros, Haroldo Figueira, Saladino de Brito, José Benito Priante, Juvenal Eliziário, Hugo Ferrari, Miguel, Fernando e Otávio do Canto, os festejados poetas Fernando Sousa, Geraldo Magela, José Deolindo (Caiçara), Cláudio Jorge de Castro, Elpídio José Picanço Farias, Vander Andrade e a professora Edithe Carvalho Vieira, de prodigiosa memória, capaz de reproduzir em minúcias, propiciando uma leitura prazerosa, as peculiaridades da mansa vida obidense de sua meninice.

Desde os meados do Século XX, os mais atentos terão notado que ocorreram modificações profundas na estrutura social que, pouco a pouco, como sucedeu em outros setores da sociedade (o comércio, a indústria, os serviços), formou-se a consciência de que havia a necessidade de incentivar os registros dessas mesmas modificações, cuja realidade hoje ninguém contesta.

Vivemos na Amazônia dos poetas, escritores, diplomados, doutores, ricos, remediados, pobres e sofredores. A instabilidade que temos não é apenas econômica ou social, ela começa no próprio nome desta vasta região, mercê de seus três conceitos: A Amazônia clássica corresponde à região norte, formada pelos Estados do Pará, Acre, Amazonas, Amapá, Roraima e Rondônia. Possui superfície de 3,5 milhões de Km2. A Amazônia legal, criada pela SUDAM, incluindo o Maranhão ocidental, o Tocantins e o Mato Grosso; a superfície alcança 5.000.000 de Km2; e finalmente a Pan-Amazônia, geográfica, internacional, formada pelos 08 países que assinaram o Pacto de Cooperação de 1978 e alcança 07 milhões de Km2. O primeiro conceito penso ser próprio para uma reunião da qual participam estudiosos das duas mais tradicionais cidades do Oeste do Pará, abordando assuntos como “identidade e memória amazônica”, que ressalvadas as peculiaridades de cada qual, passarão a influenciar e interessar a quantos vivem no que pode se tornar, de futuro, o Estado do Tapajós.

Assim, a título de modesto contributo, falando sobre alguns aspectos de “Retratos e Fatos da Literatura Obidense”, é impossível esquecer que o tema não se esgota nos limites da mera citação das obras clássicas ou populares dos autores já mencionados e sim, lembrar que o esforço de sistematização de tudo o que se produziu em termos de literatura obidense pode frustrar-se, caso não seja vislumbrada como um todo homogêneo, a traduzir o “modus vivendi” dos ribeirinhos que buscam registrar de memória suas próprias experiências, seja em toscos escritos, seja em livros ricamente elaborados merecedores de vasta divulgação da mídia. Tudo é “fato”, nessa literatura diversificada consagradora de ritos, mitos, cantigas, costumes de ontem que sumiram na modernidade de hoje, restando-lhes exatamente o registro desses aplaudidos escritores, extremamente valiosos, mesmo sendo diversos no detalhe, mas desde que harmônicos nos objetivos.

Na medida em que os participantes desse oportuno encontro sejam alunos, professores, cronistas, romancistas, poetas, historiadores, procuram em mesas redondas disciplinar o trinômio homem/terra/costumes, a nossa cidade, no âmbito amazônico, é o seu “habitat” por excelência, de vez que nela está se desenvolvendo, em escala com poucos precedentes em sua história e nenhum paralelo contemporâneo, uma extraordinária experiência cultural envolvendo e magnetizando todos os seus moradores.

A pungente interrogação, feita não apenas por mim, mas pelos que comigo ocasionalmente trocam idéia sobre o assunto, é o grau de interdependência entre os assuntos culturais – que iniciativas como a I FECIMA são típicos exemplos – com o desenvolvimento econômico e a justiça social vividos por uma cidade sabidamente carente. Incrível, porém ainda no Segundo Reinado, tivemos dois jornais – A Indústria e Sentinela Obidense – como informa Arthur Cezar Ferreira Reis (História de Óbidos) cujo início da circulação remonta a 1857 e 1867, respectivamente, surgidos com o propósito de aprimorar o grau de civilidade da população pauxiara. Modelar, para não dizer reveladora, a entusiástica citação do valoroso escritor amazonense, sobre a pequena cidade dos Pauxís: “De todos os Municípios do Pará, foi mesmo Óbidos o que teve um destaque particular quanto às preocupações intelectuais de seus moradores. E tanto assim, que em 1854 criou uma biblioteca, o Gabinete de Leitura Obidense, com 1.300 volumes, mantendo também um pequeno teatro, onde representavam os amadores locais”.

Muito mais tarde, nos albores de 1927, a cidade foi premiada com o semanário independente denominado “FOLHA DE ÓBIDOS”, iniciativa senão pioneira porém feliz do Professor José Barroso Tostes, distribuído também em Oriximiná, Faro, Terra Santa, Juruti e Lago Grande, periódico de extrema diversificação cultural e literária, com colunas de vanguarda, anúncios de peças teatrais, coluna social e palestras como a seguir, sobre o “Monstro Branco” (ingestão de álcool), com a ortografia da época = “Está marcada para o dia 3 de Maio (de 1928) importante conferência litterária e moral do brigada A. M. Muniz, sobre o thema “TENHAMOS OGERISA AO ÁLCOOL”, constando os seguintes capítulos: Saudação à assistência; Lenda árabe; Malefícios do álcool; Valor moral do ébrio; O organismo sob a acção do álcool; Velhice antecipada pelo “monstro branco”; Princípio para a arena do “monstro branco”; O ébrio e a sociedade; O álcool no seu verdadeiro papel de tóxico; Terminação e agradecimento”.

Quem se preocuparia, em épocas e circunstâncias inteiramente diversas da de hoje, em promover uma “conferência literária e moral” sobre tão relevante assunto? Sabia o conferencista que no Século XXI teríamos o bafômetro e a proibição de dirigir após a ingestão do “monstro branco”? Se não foi mero exercício de premonição, foi sintomática manifestação do nível intelectual de uma sociedade pequena, fechada, mas que vivia à moda européia, divididas em classes sociais, como relata a mestra Edithe Carvalho Vieira e até hoje ainda acontece.

Não chego ao ufanismo de afirmar que culturalmente sempre estivemos à altura de Belém, Manaus, São Luís, Cuiabá, Rio Branco, Macapá, Boa Vista e Porto Velho, mas nos fizemos respeitar pelo que temos de melhor – os próprios filhos da terra – com suas conquistas pessoais no campo cultural, que direta ou indiretamente elevam o prestígio e o conceito do Município. As notícias e comentários, não apenas na imprensa, porém na impressionante bibliografia produzida por obidenses focalizando a vida na suave colina apelidada de “Cidade Presépio” justo pela sua topografia, que dão a exata dimensão do que somos e como crescemos e nos firmamos como cultivadores das coisas do intelecto entre os povos da Amazônia.

Ademais, para fomentar esse caldo de cultura, com o advento da informática e da internet, tudo de repente se modificou. Para satisfação dos que primam pela diversidade cultural, surgiram sites, blogs, jornais, TVs, rádios que praticamente obrigaram os gestores municipais a uma mudança de atitude em relação a tão vigorosa e bem sucedida experiência. Prova desse fato foi a criação, em todas as municipalidades da Secretaria de Cultura, isoladas ou agregadas a outras como de turismo e educação, porém sem relegar a plano secundário esse importante aspecto da civilidade de um povo, pois é através das atividades culturais que se preserva o passado. Aí está, talvez, a explicação para essa mudança tão rápida quanto profunda.

Em “OS DIAS RECURVOS”, Ildefonso Guimarães nos descreve de forma magistral uma Óbidos dos anos de 1930 que não mais existe. Francisco Manoel Brandão incumbiu-se de fazer a mesma coisa, quanto ao folclore, em TERRA PAUXI. Aqueles folguedos populares por ele narrados deram lugar às festas juninas “pasteurizadas”, invenção de moda copiadas de outras paragens, sem que ninguém seja culpado por isso, porquanto a força da imitação supera a da preservação. Não é assim também com os bois de Parintins e com as “quadrilhas” de Belém, que possuem sócios, donos, precisam inscrever-se antes para receber ajuda financeira da Prefeitura e outros requisitos mais?

Quem, da minha geração, não lembra na quadra junina os cordões de pássaros, como a Arara, o Tucano, a Jaçanã, o Galo da Serra, o Surucuá, o Beija-Flor, o Guará, a Garcinha (cujas toadas, rimas, ritmos e personagens João Canto, Jorge Ary e Vander Andrade se empenham se forma louvável em atualmente resgatar), a Pomba Preta (que só saiu dois anos), os bois bumbás Pingo D’água, Pai do Campo e Pintadinho, criados ou administrados por gênios dessa cultura popular como Antonio Fernandes (Antonico Pé de Arpão), Antonio Gomes de Carvalho (Cachimbo), dona Maria Ramos. Maria José Ferreira, os colegas Adel e Raimundo Wilson, que davam especial colorido às cálidas noites obidenses iluminadas pelos balões do mestre Chico Santos.

 

Na memorável solenidade de instalação da AALO, em 25.06.2009 no auditório do Tribunal Regional do Trabalho da 8.ª Região em Belém, o acadêmico Célio Augusto Oliveira Simões já enfatizava esse viés do nosso modo de ser e de viver, em especial o viver de ontem, em seu discurso que intitulou “OBIDOS”, apresentando a cidade àquela seleta platéia: “O cenário sócio-cultural obidense é extremamente rico e diversificado. É relevante frisar, nesse segmento, as tradições folclóricas do 1) Marambiré, a mais autêntica dança dos quilombolas, originária da vila do Matá; 2) A Pastorinha, que é uma dança de origem portuguesa, versando sobre a adoração do Menino Jesus no Presépio, cultuada em ÓBIDOS pelo grupo liderado pela dedicada dona Maria José Ferreira, a quem prestamos nossas homenagens; 3)  As quadrilhas, durante a quadra junina desde os tempos de Antônio Fernandes, o inesquecível “Antonico Pé de Arpão”, proprietário do ‘Alegria Clube’; 4) Os pássaros, que a cada junho sempre animaram as ruas de Óbidos, graças a abnegação de poucos, como dona Maria Ramos e sua indefectível Arara, o Surucuá da Costa Fronteira e a Garcinha da já citada dona Maria José Ferreira”.

Não estou aqui limitando o estudo a tais fatos, mas o tema é permissivo, daí o registro. É verdade que nos orgulham os livros e as obras de Veríssimo, Saladino de Brito, Inglês de Sousa, Ildefonso Guimarães, Brandão, Ademar Amaral, Bella Souza, Carlos Antônio, Hugo Ferrari, Dino Priante, Deodoro Oliveira, Edithe Vieira, Marilene Barros e tantos outros que agora me escapam (que pecado!) e pelo que delas se extrai, fácil é compreender o que sucedeu e continua sucedendo com a Terra dos Pauxís nas últimas décadas. A modernidade, que todos desejamos, iria mexer com dois elementos sociais singularmente delicados, capazes de suscitar a explosão de grandes paixões humanas: a) a necessidade de subsistência de centenas de famílias de um lado; e a sede de crescimento econômico, de outro.

Chegaram a pequenas cidades do Baixo Amazonas gente vinda de toda parte, principalmente do interior flagelado pela enchente e por todas as carências a cada seis meses, para viver nas periferias de forma ordenada ou não, devastando a cobertura vegetal, alterando ou extinguindo rios, igarapés, lagos e lagoas indispensáveis ao equilíbrio ambiental e a estabilidade do clima. Exemplo maior em Óbidos foi o Juncal, a Veia, a floresta do Gama, verdadeiras dádivas dividas que foram impiedosamente sacrificadas para a construção de novos bairros, o desmatamento causado pelo Bela Vista, nos contrafortes da Serra da Escama e a ocupação inconsequente das margens do Laguinho. É também uma questão cultural, que precisa e deverá ser debatida, contestada, discutida. É um fato. Negativo, mas é um fato.

Esse fluxo migratório de gente do interior ou de fora, veio também com a justa aspiração do acesso à cultura para os filhos, completamente ausente ou precária em suas antigas moradas. Para eles, impossibilitados de refluírem aos núcleos de onde provieram, construída a casa, delimitado o quintal, conhecidos os vizinhos, a própria concepção de pobreza e riqueza de imediato se relativiza. Ser pobre é comer mal. Ser rico é ter moto ou carro e passar bem. Nenhum pobre come mal em uma cidade onde o peixe é abundante o ano inteiro, inclusive aquele que culturalmente é o símbolo da cidade – o jaraqui – às vezes distribuído gratuitamente, no auge da fartura. Há mesmo um lado místico nesse raciocínio primário do caboclo que vem para a cidade, de vez que seu pensamento e sua meta não se circunscrevem a ele e sim à família, mais especificamente os filhos, que deseja ver um dia com o ensino superior concluído, sabendo de antemão que não conseguirá tal objetivo salvo através do necessário aprimoramento cultural desde o básico.

Se o crescimento incontrolável e desorganizado das antigas pequenas cidades do interior assustam pela ameaça que trazem ao meio ambiente e à sustentabilidade, parece evidente que se deve procurar um meio-termo entre a manutenção dessa deletéria prática, que ninguém aplaude e o perigo da devastação completa, que ninguém aceita. Este é o nó górdio que deve ser desatado não apenas pelos poderes públicos e autoridades constituídas, porém estas com o auxílio dos representantes da sociedade civil, como sindicatos, igrejas, clubes de serviço, ONGs e entidades como a ACOB – Associação Cultural Obidense essa admirável instituição que tomou a si a responsabilidade de zelar pelo nosso patrimônio histórico e cultural através de seu próprio museu, inclusive o museu contextual que precisa ser reativado, mesmo que sem a ajuda financeira oficial que tanto merece.

Embora a floresta ainda seja a mais ostensiva das realidades amazônicas, permito-me acrescentar, por conta própria, a existência de mais um elemento a compor esse quadro de intenso apelo estético e emocional, que é a nossa cultura. Discute-se a toda hora, como meio de preservação dos ecossistemas, que a alternativa seria manter a selva intacta, eternizando o extrativismo e renunciando à sua ocupação. O debate desperta paixões até mesmo por dignitários de países distantes, alguns deles contrários a ocupação desordenada desse imenso espaço, por significar uma ameaça concreta à subsistência dos povos indígenas e quilombolas, dos rios, da reprodução das espécies e um fator a mais de deslocamento do homem do campo rumo às cidades, pois parte desse contingente será utilizada como mão de obra primária na construção das dezenas de hidrelétricas planejadas para os caudalosos afluentes do Amazonas, dentre as quais, pelos seus conflitos e notoriedade, a de Belo Monte, combatida por maciça maioria, inclusive o Ministério Público Federal, como exemplo rematado de forma pedratória e inadequada de exploração do Rio Xingu. Salvar o planeta, mesmo com o voto contrário ou o veto dos países ricos que mais o agridem, é o objetivo da Rio + 20, que está em pleno curso na antiga capital da República, no momento em que faço estas anotações e todos os seus eventos paralelos ainda que oficiosos porém não menos relevantes – o C-40 , o Programas Municípios Verdes, o Rio Clima, a Tedx Rio + 20 e a Cúpula dos Povos, todos, invariavelmente, com maior o menor víeis voltadas à solução da aflitiva questão ambiental e o futuro do planeta.

Não é apenas a flora, a fauna, os rios e os aquíferos subterrâneos que estão arrolados entre as preocupações mais prementes dos estudiosos da Amazônia. A preservação da cultura necessitamos promover, de preferência de parceria com outros municípios que nos são próximos, como Santarém, razão pela qual deve ser dado o indispensável destaque a I FECIMA, que busca justamente esse objetivo. Terei o maior interesse e empenho em conhecer os resultados obtidos, após a permuta de experiências que o encontro propiciará, para que, em vez de repetir equívocos do passado remoto ou recente, todos – setores públicos, empresas e cidadãos – possamos aperfeiçoar medidas que se revelarem possíveis e eficazes. Quero crer que os problemas impostos pela modernidade que afligem Santarém guardem grande similitude com os vivenciados em Óbidos.

Não cabe, neste breve texto, que é de todo despretensioso, o exame percuciente e profundo da obra literária ou da atividade cultural de cada artista, poeta, músico ou escritor obidense, em respeito ao espaço e à paciência dos leitores. Este será o repto a ser buscado no seminário que se avizinha, quando os estudiosos, participantes e interessados que nele terão assento, por certo as esmiuçarão, para ao fim compor um esboço dos retratos e dos fatos da literatura obidense. Evidencio apenas, por imperativo de justiça, a indispensabilidade do papel da cultura, em qualquer de suas formas, seja erudita ou popular, na vida de uma comunidade qualquer que seja ela e tal detalhe certamente não passará despercebido aos seus integrantes.

Destaco, neste meado de ano, como uma das mais autênticas manifestações culturais do povo, a promoção das festas folclóricas juninas e julinas, que comportam um conjunto de costumes tradicionais, crenças, superstições, cantos, exibições, indumentárias, lendas, artes, conservados ou cultivados no seio de um povo. Tais elementos fazem parte da cultura e do sincretismo de um lugar e à evidência são objetos dignos de permanentes estudos e ilimitada publicação de livros, discos, cordéis, etc. A didática do ensino fundamental, médio ou superior, por sua vez, atine ao conceito de ensino, de instrução, o que leva a crer que integram essa mesma didática, também os elementos culturais folclóricos, recentes ou tradicionais.

Nessa perspectiva, como a instrução em sua amplitude não se limita à literalidade, mas vai além, alberga na prática a vivência, que por sua vez fomenta o fio condutor da cultura, que faz passar o conhecimento de uma geração à outra, é óbvia a conotação didática das aludidas festas folclóricas antes referidas. É um imbricar de permanentes objetivos, quais sejam a sistematização do ensino regular, como veículo através do qual se perpetuam os mais legítimos costumes de uma região. E essa alusão só faz reforçar o escopo da representação teatral e da execução musical seja em uma peça operística, seja em uma dança de rua.

Inglês de Sousa, uma das nossas figuras maiores, foi um dos primeiros a sintetizar a estreita ligação geográfica, comercial, intelectual e profissional entre as cidades do oeste do Pará, como se constata em um trecho de “Contos Amazônicos”: “Passeando uma tarde na praia do Tapajós, abeirou-se de mim uma cabocla velha em quem a custo reconheci a industriosa e boa velhinha do igarapé de Alenquer, em cuja hospitaleira casa dormira algumas vezes de passagem pelo sítio. Ela, porém, me reconhecera facilmente e, parece até que a conselho de algumas pessoas, me procurava como o único doutor da terra, que exercia a profissão de advogado. Contou-me a sua história, interrompendo-se a miúdo para limpar na manga do vestido as lágrimas que lhe corriam, e finalizou entregando-me um embrulho com dinheiro, duzentos e poucos mil réis, tudo quanto tinha, para que lhe livrasse o filho de jurar bandeira”.

A obra de Inglês de Sousa, perene como a de Veríssimo, bem demonstra que no longínquo ano de 1865 já havia um caboclo fivela que, percorrendo as cidades-irmãs acima citadas no exercício do seu ministério privado de famoso causídico, lançou inadvertidamente as sementes do um intercâmbio cultural que se acentuou nos tempos do 4.º Grupo de Artilharia de Costa, onde santarenos e alenquerenses vinham “servir” e o conclave de hoje nada mais faz do que ratificar.

Francisco Manoel Brandão grafou de maneira magistral em “Terra Pauxi” os hábitos, os ritmos, as crendices, os espíritos do bem ou do mal e os tipos populares que marcaram a Óbidos de ontem. E Peregrino Júnior, seu prefaciador, criou ainda em 1951 a surprendente expressão da “apologia do bairrismo”, registrando com toda clarividência: “A nação a que pertencemos compõe-se de inúmeros quejandos torrões, e cada um destes é para o nele nascido o predileto. Este amor, porém, sente-se ele próprio como estreito e incompleto. Ao pé, em volta, além da nossa terra natal, ficam outras terras, continuação da nossa, onde vive gente que sabemos nossa irmã, da mesma origem, da mesma fala, do mesmo sentimento que nós e que, como nós, quer conservar a terra em que nasceu. É esta sucessão num território, geográfica, histórica e moralmente contínuo, de gerações vivas e mortas, ligadas pelo mesmo sentimento de comunidade e origem e pela mesma vontade de vida coletiva e de mútua união, que faz a pátria”.

No rumo do saudosismo bairrista, Ildefonso Guimarães deixou para a posteridade, em “Sombras do Amanhecer”, um registro que toca de perto a sociedade obidense e sua multifacetada formação de hábitos e costumes de além mar: As décadas de 10 e 20 trouxeram a Óbidos o estabelecimento de emigrantes, representados principalmente por italianos e judeus-marroquinos. Uma gente sólida; que veio para ficar; criar raízes na terra, fazê-la crescer e prosperar. Toda essa empreendedora colônia que ainda hoje marca com seu sangue a família obidense, atuais brasileiros natos que se têm destacado em todas as atividades úteis sociedade: os Hamoy, os Cohen, os Chocron, os Belicha, os Elmescany entre os judeus; e os Savino, os Priante, os Imbelloni, os Serrazin, os Florenzano, os Milleo, os Calderaro, os Ferrari entre os italianos”.

Dessa gente ilustre, além do engenheiro, cronista e memorialista Dino Priante, o médico e escritor José Benito Priante, titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e membro da mesma família, encontrou tempo e inspiração, no livro “PEGADAS DO MEU CAMINHO”, para aliar a saudade do seu torrão natal e a preocupação com o meio ambiente, na excelente crônica denominada “Amazônia Ecológica” onde vaticinou: De maneira sucinta, mas sucinta mesmo, em ligeira pinceladas, faço um miniretrato da região onde nasci. Tudo isto é dádiva de Deus, pelo fato mesmo podendo ser aproveitada, mas deve ser preservada de maneira ordenada para não desajustar o equilíbrio ecológico da região. O pedratório não tem vez. Não existe área verde mais extensa do que a nossa Amazônia, nos dias atuais. A preservação da mesma beneficiará todas as nações deste planeta. Diante desta realidade, é que os países ridos do primeiro mundo querem e devem ajudar a região garantindo também a sobrevivência deles. Devemos aceitar. Com o alerta de que todos os investimentos sejam feitos em projetos que venham de (sic) encontro à preservação da natureza, erradicando a pobreza de seus habitantes, propiciando a eles uma vida mais humana e digna. Nada de usufruir lucros com essa ajuda financeira. As autoridades competentes e responsáveis estejam vigilantes”. O que esse eminente cronista obidense previu no recuado ano de 1994, corporifica-se na Rio + 20, com a triste realidade da recusa desses mesmos países ricos financiarem a preservação da floresta.

Bella Souza, sobre a nossa formação cabocla miscigenada, em seu “AMAZÔNIA, PATRIMÔNIO NOSSO DE CADA DIA”, faz interessante resumo da gênese das nossas peculiaridades (ORIGENS, COSTIUMES, HÁBITOS E CRENÇAS): “A região amazônica, sem dúvida, é impar. O ribeirinho é um homem diferente, fruto de uma mistura de raças, onde se faz presente o branco, o negro e o índio, sendo que a influência do último o torna inconfundível. Um ser humano bem característico, com o espírito de liberdade indígena, aliado à força e à coragem do negro e ao extraordinário senso de aventura e conquista do branco, numa feliz miscigenação das diversas etinias”.

Para uma abordagem quase modelar do que somos, Otávio do Canto, em “Várzea e varzeiros da Amazônia”, de modo magistral tocou na ferida exposta do vergonhoso “truck system” que esmagava os juteiros que produziam e comercializavam a fibra por preços quase simbólicos: “O controle do sistema de aviamento se processavapela realimentação constante das dívidasao longo dos anos e da aparente prestação de favores do comerciante ao seu freguês.Dentro dessa lógica, às vistas do juticultor, o patrão não era um explorador do seu trabalho e de seus companheiros, mas um amigo a quem se devia favores e lealdade e que, portanto, merecia a confiança para ser padrinho de um de seus filhos. Dessa maneira, patrão virava compadre, inclusive com a possibilidade de se apropriar do trabalho do afilhado e seus frutos”. Essa a nossa recente realidade que o erudito geógrafo narra sem meias palavras, inserida num contexto amazônico que também abriga outras práticas nocivas de exploração do homem pelo homem.

O sociólogo obidense Fernando Canto, conquanto quase amapaense, traz a lume em “Adoradores do Sol” um assunto que se distorce e deturpa na medida que os anos avançam, ora pela influência de outros ritmos e costumes, ora obstaculizada pela comédia do preconceito: “O boi-bumbá é folguedo folclórico amazônico, réplica do bumba-meu-boi nordestino (…). Já Câmara Cascudo fala do bumba-meu-boi com nuances amazônicas. “O elenco do ‘boi bumbá’ inclui o senhor da fazenda, dona Maria, sua mulher, a moça branca, filha do casal, amo (feitor da fazenda), rapaz fiel, dois vaqueiros, rapazes, Pai Francisco, Mãe Catirina, ‘diretor’ dos índios, ‘doutor curador’ e seu ajudante, um padre, um menino que serve de ‘rebolo’, o ‘tripa’ do boi, entre outros. Pai Francisco mata o boi para satisfazer o ‘desejo’ de mão Catirina e faz a divisão da carne e das vísceras. O fazendeiro manda prendê-lo pelos índios, previamente batizados por um falso sacerdote. O ‘doutor curador’ ensina a Pai Francisco a técnica de espirrar em vários pontos do boi até despertá-lo”. Saibam os estudiosos da I FECIMA que não mais é permitido a morte do boi, para não despertar nas crianças o maltrato aos animais; eliminaram a moça branca, em nome da igualdade racial; os índios não podem mais caracterizar-se como tal, para elidir discriminação com os silvícolas e nenhum falso sacerdote pode participar do auto, para não ultrajar o conceito da igreja. Acabaram as personagens principais do folclore junino, pois cordão de boi ou de pássaro que transgredir tais recomendações, não recebe qualquer ajuda oficial das prefeituras. Pode?

Saladino de Brito, o vate que nos encantou com sua inesgotável inspiração, na obra póstuma “Poesias”, na qual, com patrocínio do Governo do Estado (administração Hélio Gueiros), reuni 122 de suas belas poesias e tive a honra de prefacia-la, consignou com letras de ouro seu orgulho pelo torrão natal: “Eu vejo avançar o rio caudaloso, qual serpente de prata à luz do luar. Eu vejo a colina, a Serra da Escama, a igreja de Deus, a virgem a cantar. Eu vejo a beleza das matas mais densas, o claro da aurora, o sol a brilhar. Eu vejo nos velhos o amparo das crenças, a fala imensa, do velho Rio-Mar. Eu vejo o céu de estrelas bordado, a glória de um povo, heroico a vibrar. Eu vejo esse céu qual concha, azulado, curvar-se pra terra, querendo abraçar”.

Miguel Canto, em “Natureza” nos brindou com uma pérola, verdadeiro revelar de um estado de espírito, quase um protesto contra esse ruidoso mundo da atualidade, que compartilho com um misto de entusiasmo e inconformismo, pelo que tem de inalcançável na realidade sôfrega e célere que testemunhamos nas metrópoles: É no mato, literalmente falando, que gosto de observar o maravilhoso silêncio da natureza”.

José Cornélio dos Santos nos propicia em “Lembranças de um Obidense” – lançada em Outubro de 1994, por mim também prefaciada – uma saborosa crônica de suas aventuras e desventuras pessoais, marcando uma fase da literatura autobiográfica cabocla que veio para ficar, inspirando os escritores do oeste paraense, que passaram a adotá-la como forma de expressão pouco sofisticada de comunicação com os leitores, revelando vivências, triunfos, frustrações, amores e o momento estético do seu próprio desenrolar.

E o que nos diz a folclorista, escritora e musicista Edithe Carvalho Vieira, nossa grande homenageada, monumento vivo das tradições obidenses, sobre quem não consigo disfarçar minha admiração? Fala-nos a mestra, em “AMAZÔNIA, CONTOS, LENDAS, RITOS E MITOS”, de crendices como o Caixão da Bacuri, a Bola de Fogo, as Visagens dos Casarões, a Visagem do Murmúrio, a Mulher de Branco e de tantas outras lendas e personagens que apavoravam os adolescentes da minha época, inclusive a mais sinistra delas, conquanto inofensiva, que me paralisava de medo toda vez que a encontrava na rua – a Ribite – de quem traça um perfil impecável e horripilante: “O verdadeiro nome da Ribite era Laurentina Marques, considerada uma das feiticeiras mais procuradas por suas endiabradas feitiçarias, que em muitos casos não tinham repercussão alguma”. E completa, revelando o lado sombrio da nefanda personagem: “Ela gostava de comer coisas podres, fazia no cabelo um emaranhado de pimentas malaguetas e se gerava em cobra-grande. Bem na frente de sua casa, havia uma poça d’água que lembrava uma pequena lagoa que nunca secava. Depois da morte de Laurentina, a poça secou”. Em outra passagem, fala-nos ela de um certo “porto dos soldados”, perto do “Burrinho”, que eu hoje não saberia localizar com precisão, caminhos da tropa do 4.º GAC para os exercícios de tiro na Serra da Escama. Sobre seu livro, diria que a narrativa é contagiante. Esbanja com sua criatividade um talento nato, fazendo da policromia de lugares o rico conteúdo da obra, responsável pelo sucesso do grande show cultural que nos proporciona a própria leitura. Espero que não deixe ela de lançar seus demais livros, onde faz em sua inteireza o resgate completo do patrimônio cultural e artístico de Óbidos.

A Serra de que nos fala a mestra Edithe Vieira é uma espécie de Monte Everest para os pauxiaras, um totem revestido de verde e pontilhado do ouro dos ipês em época de floração. Em pé de igualdade com o colosso de águas barrentas que banha a cidade, de quem o Laguinho é o tributário predileto, encarna o símbolo visual da municipalidade. Habita nossos corações. Deodoro Oliveira, em “FILOESIAS”, grafou em imortal registro, como só os poetas sabem fazer, traduzindo o sentimento coletivo: “Com sua saliência gigantesca de dorso de camelo; com seu verde musgo de precioso jade; defesa de uma aldeia kaxuyana; encanto dos cânticos das guaribas em forma de oração; imagem permanente e perpétua de escamas vegetais; purificador do ar verde e vermelho na fusão amarela de outubro; com os carões e teu-téus entoando afinado com o agudo da piaçoca; sinfonia contornante aos pés da esfinge natural”.

Diga-se, a bem da verdade, que Óbidos tem um time de primeira linha de inspirados poetas e trovadores, dos mais diversificados estilos, porém todos eles dignos de figurar em qualquer galeria de versejadores. Em um de seus belos escritos, homenageia uma de nossas pérolas de beleza natural, em o poema “LAGO DO CURUMU”:Foi numa noite linda que te revi; quando buscava meus acalantos; com a lua em rútilo plenilúnio, então sorri; inspirando-me a proclamar os teus encantos. Curumu, obra da natureza e cartão; feito pelo pincel em quadro d’ouro; com mágicas e coloridas luzes do verão; um contexto ímpar e feliz desembarcadouro. Como fundo uma paisagem de morro; circundado do verdeal da esperança; onde aves sonorizam gorjeio ou pedem socorro; harmonizando o delicado e o fero, em eterna dança”. Poucas vezes estive nesse mágico recanto. Se nunca me fosse dado esse privilégio, bastava ler a poesia de Fernando e me sentiria parte dessa natureza ímpar que é o fascinante lago.

José Deolindo (Caiçara, para os amigos e admiradores), que eu diria ser hoje o maior autor de acrósticos da nossa cidade, valor genuinamente nosso tanto quanto os demais celebra em um deles o emblemático tema dos casarões, que nos faz conhecidos como a cidade mais portuguesa dos trópicos. Vejamos o primor de suas rimas em ANTIGOS CASARÕES”, onde deve ser acolhida a licença poética: Antigos e autênticos casarões; Naturais, lindos, tão belos; Tantas casas, comércios ou mansões; Impressionantes, parecem castelos; Gostoso é tê-los, sempre; Ostentam historias sublime; São heranças dos nossos ancestrais; Casarões, os queremos bem firmes; Ao estilo colonial fostes erguidos; São dos imigrantes um segredo; Amanhã não queremos os seus gritos; Reinarão se, preservados, sem medo.Õbra prima de um povo guerreiro; Es passado é presente um futuro altaneiro; Sempre os preservaremos és amor verdadeiro”. Deolindo já homenageou com seus acrósticos tudo o que existe de genuinamente nosso – até o Carnapauxis – que achou em Geraldo Magela outro admirador da folia de rua, bem expressa em sua poesia “HOMENAGEM AO CARNAPAUXIS”: “(…) Foi o que eu sempre quis; brincar o Carnapauxis; pelas ruas da cidade. Quero sentir essa emoção; na alma e no coração; transpirando felicidade. Nosso amor é um colosso; você donzela e eu bom moço; curtindo toda a empolgação; quando o bloco chegar à praça; eu te beijo e você me abraça; quero sentir a tua pulsação”. No mesmo diapasão de saudade e inspiração, Claudio Jorge e sua fértil criatividade, lembra o estilo de Saladino quando ergue louvores ao seu pedaço de chão, em “OBIDOS”: Ah! quem me dera ouvir os lamentos; da juruti ao pôr do sol na mangueira; ver o vento na fúria dos elementos; balançando as folhas da palmeira; o grande rio, indômito, selvagem; a estroar seu canto bem forte; o pescador atravessando com coragem; a correnteza que o faz temer a morte; a cruz tosca na beira da estrada; onde saudoso o passarinho vai pousar; alegrando do crepúsculo à alvorada; a singela beleza daquele lugar; a serrinha deslumbrante e tão bela; com o grito da guariba ao entardecer; sua floresta toda verde e amarela; do pau d arco que ali vai florescer”.

Elpídio José Picanço Farias, poeta maiúsculo de tradicional família da “Cidade Presépio” fez mais. Falou em “CASCATA DE SONHOS”, sintetizando num único verso, do Amazonas, da Serra da Escama e ainda aproveitou para consignar seu protesto pela posse não autorizada da Capela do Bom Jesus (outro símbolo Pauxís) vedando o descortino de uma das mais belas e cinematográficas visões que alguém pode ter quando está no topo da colina: “Alegres foram as tuas cores; que a passagem do tempo apagou; e do teu fechado interior. Não mais se vê o verde da serra, nem a beleza do imenso rio-mar; teu espectro ficou tão restrito; e o que já foi amplo e bonito, faz hoje o obidense chorar”.

Carlos Antônio Silva é outro escritor que honra as letras amazônicas, conhecido e aplaudido que é de Manaus a São Luís, onde é grande seu público. Por enquanto é cronista, mas não tarda dará aos seus escritos a forma perene de um livro, deleitando-nos com sua prosa irreverente, de diálogos rápidos e ritmados, onde deixa a cargo do leitor a conclusão de cada “causo” contado, porém sem a revelar inteiramente. Esse o verdadeiro segredo da crônica, por isso mesmo são poucos os (bons) cronistas. Certo tempo encontrei alguma semelhança desse magnífico escritor com o nacionalmente famoso Cornélio Pires, porém depois modifiquei o conceito. Cornélio não desgruda do linguajar tabaréu do seu chão de origem, exigindo permanente atenção de quem o lê para não perder o rumo das suas histórias. Pode-se dizer mesmo que ele faz do linguajar matuto a estrela de suas narrativas e não as personagens que tomam parte do enredo. Carlos não apela para esse primitivismo literário, burilando e dando uma roupagem tragicômica aos episódios que o inspiram a escrever. Questão de estilo. Respeito Cornélio, porém fico com Carlos, por ser mais autêntico, divertido, pouco burlesco e pela fertilidade de sua criação intelectual, tendo os mitos amazônicos como pano de fundo, como faz em “COBRA GRANDE”: Neste mundão da Amazônia, o homem vive enfiado entre matas, rios, lagos, pássaros e animais ferozes. é um mundo misterioso, místico e lendário. o amanhecer retalha a floresta, com raios de sol, penetrando tal como espadas luzentes, encantando o mais rude ser humano nativo do lugar. as tarefas do dia são emolduradas por um leque de cores verdes em movimento, enquanto os pássaros entoam uma sinfonia, dando um colorido vivo e um espetáculo melódico harmonicamente encantador. o sol se despede rubro, com desejo de voltar, e mergulha colorindo o lago, anunciando aos peixes que é hora de caçar. a noite úmida, envolvente e misteriosa se faz respeitar por lendas ou por fatos como é o caso da “cobra grande”, que passo a reproduzir na minha versão. uma bela índia, misteriosamente, ficou grávida da cobra boiúna. foi um alvoroço na pacata aldeia às margens do rio amazonas, nas proximidades de Óbidos. a gestação foi acompanhada por rituais, pajelanças e cerimônias para afugentar espíritos indesejáveis. no tempo certo, a índia pariu um casal de gêmeos, de feição assustadora, de cor escura e aparência de robustas serpentes. a índia os batizou de Honorato e de Maria. percebendo a impossibilidade de viverem na terra entre humanos, então os lançou no rio. as duas serpentes criaram-se nas profundezas do rio amazonas. o povo chamava-as de cobra Norato e de Maria caninana.

A destacada historiadora e escritora Francisca das Chagas Simões Pantoja (a saudosa dona Chaguita), ex-Presidente da ACOB-Associação Cultural Obidense, no opúsculo “A PRESENÇA FRANCISCANA EM ÓBIDOS”, deixou-nos um registro valioso, que explica os primórdios da procissão fluvial do Círio de Sant’Ana no distante ano de 1935 e que todo ano em julho testemunhamos: “A epidemia de malária enlutara a cidade. Raimundo da Costa Lima que era sempre, presidente da Festa de Sant’Ana havia falecido e assim como ele a maior parte de seus companheiros de festividade. Aproximava-se o mês de Julho, o povo ainda sem recursos, estava muito sofrido. Enão Frei Domingos convoca os jovens Floriano Costa, Herdemiro Farias, Américo Pantoja, Armélio Santos, José Rosendo Marinho e sua esposa Luiza Seixas Marinho e iniciam o movimento para as celebrações religiosas da festividade de Senhora Sant’Ana sem contar com os recursos monetários, mas apenas com a boa vontade e a coragem dos festeiros. A Senhora Sant’Ana é levada para a residência do casal Seixas Marinho, onde o povo da Costa se reunia para revenciá-la como a Mãe de todos os obidenses, depositando suas espórtulas, até chegar o 2.º domingo de julho (1935) quando volta à sua Igreja trazida em um grande batelão, todo ornamentado de fores de taxizeiro, seguido de uma interminável procissão de danoas a remo. Assim foi realizado o 1.º Círio Fluvial de Óbidos, homenagem que vem sendo prestada todos os anos à nossa Padroeira”.

Finalmente, o mais celebrado dos escritores obidenses da atualidade, nosso candidato natural a uma vaga na Academia Paraense de Letras, cujo lançamento do seu primeiro romance é questão de meses, em “CATALINAS E CASARÕES” tocou num ponto do nosso saudosismo e no transtorno que até hoje nos iguala e funciona como uma prova do amor que temos por Óbidos, onde se chega após as agruras de várias horas de barco, sem que tenhamos a esperança de qualquer mudança a curto prazo: “A Panair do Brasil foi estupidamente quebrada, em 1966, por um decreto fraudulendo da ditadura militar, num dos mais tumultuados e injustos processos da aviação brasileira. Suas concessões internacionais passaram para a Varig, e as rotas domésticas para a Cruzeiro do Sul, que ainda continuou operando com os velhos Catalinas até 1968, ano em que esses aviões foram desativados. A nova concessionária passou a voar com outro gigante dos nossos ares, o famoso DC3, mas apenas na rota Belém-Santarém-Mauanus. Restou uma promessa do governo federal, cumprida a passos de cágado, de dotar as principais cidades ribeirinhas com uma pista de pouso decente. Isto representou um transtorno muito sério para a maioria da população das pequenas cidades, principalmente daquelas, antes regularmente servidas pelos bravos Catalinas, obrigando os passageiros a se deslocarem de barco até Santarém, para só então pegarem um avião com destino a Belém ou Manaus. Óbidos só conseguiu ter seu aeroporto e ser beneficiada com os DC3 da Cruzeiro do Sul, graças à iniciativa do inesquecível e abnegado bispo Dom Floriano. Liderando um grupo de voluntários e empresários do município, conseguiu construir a atual pista de pouso, praticamente, na base da enxada e em regime de puxirum. Hoje, com a crise econômica que se abateu sobre Óbidos, o passageiro voltou a gramar de barco até Santarém, porque as companhias aéreas perderam o interesse pela rota. O precário aeroporto de Óbidos vai resistindo ao tempo, mas se deteriorando ano a ano, como um ser abandonado e carcomido pela solidão, até que algum dia a cidade volte a encontrar um novo rumo que faça justiça à sua bela história”.

Cada um dos escritores citados nesta breve mostra, respeitado os estilos de cada qual, deixa um pequeno registro de seu amor pela cidade natal, mas o conjunto da obra, também respeitada a diversidade e os pontos de vista, traduzem o que temos de melhor, já que a economia não vai bem, no dizer de Ademar. E ninguém melhor do que ele para diagnosticar nossas peculiaridades, de vez que nada escapa ao seu arguto senso de observação.

Hugo Antônio Ferrari, descendente de italianos como o próprio sobrenome revela, escritor de méritos, ex-vereador e secretário municipal, com obras divulgadas em jornais de Belém, permite-se discorrer sobre outro símbolo, estreitamente vinculado às nossas raízes, na excelente crônica “ÓBIDOS E O JARAQUI”, peixe que por lei ele tornou símbolo dos pauxiaras, aliando o ufanismo caboclo com justificada preocupação ecológica:O saboroso Jaraqui – considerado o “Peixe Símbolo” de Óbidos  – cuja Lei, foi de minha autoria quando Vereador à Câmara Municipal de Óbidos. Com essa homenagem, surgiu o já tradicional “Festival do Jaraqui”, promovido pela Associação Cultural Obidense  (ACOB). A cada ano, esse evento se torna mais concorrido. É a oportunidade para a cidade de Óbidos mostrar um pouco da sua cultura, das suas tradições – inclusive a sua culinária -, tendo o Jaraqui como um dos pratos principais nesta época. É a chegada da “piracema” no Rio Amazonas, em frente à Óbidos. O Jaraqui lidera os demais cardumes, cuja pesca empolga a todos. Um dos locais tradicionais onde o referido peixe é apanhado de tarrafa, é no atracadouro da Companhia Docas do Pará (CDP). A nossa Amazônia – apesar de sofrer tanta agressão – continua a produzir vida em abundancia através dos mais variados alimentos – dentre eles o pescado – muito consumido pelos nossos ribeirinhos. É à base da alimentação desses nossos irmãos (…). Esse Festival – é mais uma expressão cultural da nossa Terra – cujos obidenses têm a honra e o orgulho de estar à margem esquerda do maior rio do mundo apreciando e participando do fenômeno da pesca do Jaraqui””.

A exemplo que fez a mestra Edith Vieira, Manuel Ayres, cientista e escritor, verdadeiro ícone da nossa cultura erudita e popular, foi ao ponto mais prevalente desta última – os folguedos juninos – em sua memorável crônica “RECORDAR É VIVER…”, onde nos brinda com as inocentes brincadeiras da época:As festas juninas na Cidade de Óbidos são muito famosas. Desejoso de lembrar, com saudades, esses festejos, descrevo alguns episódios por mim vivenciados no Tempo da minha infância (1925/1935). Desde o início do mês de junho, as Donas de Casa começavam a preparar o gostoso aluá, guardar achas de lenha para as fogueiras e cortar papel de seda colorido para confeccionar as “bandeirinhas”. Estas alegravam os ambientes festivos, penduradas em longos fios, cujos rolos tinham sido adquiridos na Padaria do Careca. As chamativas blusas usadas no período eram de chita e as calças de riscado, compradas nas Casas do Seu Priante, do Silvestre Savino e do Seu Chocron. Os chapéus de palha, enfeitados com fitas de gorgorão e cetim, com pequenos espelhos em volta, davam o charme aos caboclos envaidecidos, tostados pelo sol, e com os cabelos reluzentes de óleo de mutamba. No terreiro do Amazônia Clube as fogueiras atingiam cerca de 4 a 5 metros de altura e os balões do Chico Santos encantavam a comunidade obidense, sem esquecer o famoso “Pau de Sebo”, um esteio de pau mulato, bem ensebado, com um envelope na extremidade, contendo certa quantia em dinheiro da época – em geral dez mil réis. E haja candidato a tentar subir para ganhar a oferenda, esfregando muita areia nas camisas e nas calças, para aumentar a aderência na escalada com a ajuda das peconhas. Quem conseguisse a façanha de atingir o topo, que só ocorria após muitas tentativas com a retirada gradual da cera pelos subintes, recebia muitos aplausos dos participantes da brincadeira”.

Haroldo Figueira (Xapuri), intelectual de escol, artista da palavra, obidense da gema, parceiro dos tempos do Ginásio São José, na crônica “MÚSICOS TALENTOSOS”, em texto enxuto (como de seu elegante estilo) nos faz lembrar de uma época de ouro, vivenciada por toda uma geração que se divertiu motivada pelos acordes de “Os Relicários”, como a demonstrar que também na música, tal qual Eduardo Dias e suas belas canções, temos nossos valores: “(…) Dançar rebolando também já não chamava tanta atenção. Foi mais ou menos nesse período que Os Relicários surgiram. Formado por músicos locais, criado, patrocinado e supervisionado pelo meu amigo e colega Ricardo Soares Filho, o Cri-Cri, que, inclusive, cedia sua residência para a realização dos ensaios noturnos, o grupo musical obidense apresentava-se com Raimundo Alfaia, no baixo; Idarmir Amaral, no sax-tenor, Dazinho no sax-alto; Wilson, na bateria; e os saudosos Hilberto (Tibinga) na guitarra e Manoel das Graças (Brocoió) como vocalista. Banda nova, bem ensaiada e equipada, garantia de salões de baile cheios e de gente feliz. Ao som de Os Relicários, o pessoal mais moço tinha, enfim, o estímulo de que precisava para exteriorizar toda a energia reprimida. Mas o portfólio melódico do grupo além de atualizado era diversificado. Seus integrantes estavam capacitados para executar bem qualquer gênero musical. Dessa forma, o gosto do público de mais idade ou o de pessoas que apreciavam canções mais românticas também era atendido a contento. A Cidade Presépio podia orgulhar-se, finalmente, de possuir um conjunto musical de primeira linha.

Dino Priante, com sua conhecida memória fotográfica, corrobora em páginas de saudade o que nos diz Haroldo Figueira, revelando em “ONDE A JUVENTUDE OBIDENSE DANÇAVA” aquela década da contracultura que contagiou o Brasil e não deixou de fora a “Cidade Presépio”: “…E aos domingos, logo após a missa  na Matriz das 19h30min horas, a juventude obidense, se dirigia para o Salão Paroquial, onde aconteciam as festas com um dos melhores conjuntos que já apareceram em Óbidos, “Os Relicários”, dirigido pelo professor Ricardo (Cri-cri), funcionário do Banco do Brasil SA na época.  Esse conjunto tocou em quase todas as cidades do Baixo Amazonas, inclusive em Santarém, tal era seu sucesso. O piso do Salão Paroquial tem uma pequena inclinação, com sua parte mais baixa para o lado do palco, pois ele foi projetado para apresentações teatrais, conferências, de modo que o espectador, em qualquer ponto do salão tem uma visibilidade boa das apresentações, mas isso não atrapalhava em nada os dançarinos. Era outro lugar gostoso de divertir, onde rolaram inícios de muitos namoros de nossa juventude da época. Havia também a sede dos Estivadores de Óbidos, na Rua Elói Simões, bem atrás da Escola São Francisco, assim como a sede do Antonico, Trav. Rui Barbosa com Umarizal”.

Nossa cultura é registrada paripassu pelos escritores de todas as tendências e de todas as épocas. Haroldo Heráclito Tavares, ex-prefeito que chegou à presidência do legislativo estadual, grande responsável pela sede própria da ACOB, discorre com propriedade sobre nossos primórdios políticos e culturais e por imperativo de justiça não poderia deixar de ser citado nesse resumo, até mesmo par que possa um dia fazer seus registros escritos para as vindouras gerações, como seria desejável.

No livro “UM ABRAÇO APERTADO”, discorrendo sobre os entreveros da cabanagem nas cidades do Baixo e Médio Amazonas, procurei dar o necessário destaque à natural tendência que temos em ressaltar nossos vultos e valores, humanos, históricos e geográficos: “Em hora oportuna, a ‘garganta de terra’ que aperta o Rio Amazonas, acidente fisiográfico que torna a ‘Cidade Presépio’ um lugar ‘previsto pela Divina Providência’, como falou Cristóvão de Acunha no remoto ano de 1637, está merecendo justificadas homenagens, quase quatro séculos depois. É o povo despertando para a preservação de seus verdadeiros valores culturais, estéticos e paisagísticos. Padre Sanches, que com o terço em uma das mãos e a arma na outra, salvou Óbidos da fúria dos cabanos, terá ainda que esperar pela sua merecida homenagem póstuma”.

Enfatize-se, ainda, o quadro saudosista e belo pintado em letras de ouro pela professora Auta Arruda do Amaral na obra “SÃO BRAZ, UM TEMPO QUE PASSOU”, onde ela discorre sobre o lendário Paraná de Dona Rosa, de tão ilustres filhos e insuperável beleza estética. Essa veneranda mestra nos legou páginas de suaves e inspirados versos que merecem ser mais bem divulgados, para conhecimento de quantos tem amor ao que é grandioso em termos literários. Seus escritos – que tenho o privilégio de conhecer em parte – transmitem não apenas mero passadismo de seus lugares e vivências, porém o desejo sincero de transmitir seus sentimentos em relação a tudo o que a fez feliz… muito feliz!

E falando em belos versos, desde “LIRA D’ÁGUA”, disco gravado salvo engano em 1986 que marca o início de sua carreira de festejado poeta, músico e compositor, Eduardo Dias já presenteou Óbidos com “CANTO DA AMAZÔNIA”, “SABIÁS E ROUXINÓIS”, “BATUQUE AMAZÔNICO”, “O CANTO OBIDENSE”, “CURUMÚ”, “SARACURA-MIRÁ” e “ESTRELA NEGRA”, coletânea que merece ser ouvida pelo que muito que guarda de tudo aquilo que achamos belo nesta Amazônia de segredos e mistérios.

Alberto Rogério Benedito da Silva, respeitado profissional e acadêmico, já anuncia para breve o lançamento de seu livro “A INDÚSTRIA MINERAL DO PARÁ”, uma obra de fôlego, que será mais um contributo para o acervo da rica literatura local, pois inscreverá seu nome senão na crônica, no conto ou no romance, porém nas imorredouras páginas da literatura técnica, como já fizeram Constantino Menezes de Barros e Podalyro Amaral de Souza.

Óbidos tem algo de espiritual que inspira seus escritores, poetas e artistas que não sei explicar. Talvez seja a bem temperada mistura do lúdico com o belo, a magia da floresta, o gigantismo do rio, os lagos, igarapés e montanhas. Talvez Layse Ferreira, a querida amiga que hoje desfruta por opção os encantos das praias fluminenses saiba dizer melhor do que eu o porquê de tudo isso, pois volta e meia retorna para sentir essa felicidade e curtir as velhas ladeiras, como ela mesma proclama.

Fiquei satisfeito com a iniciativa da Academia Artística e Literária de Óbidos (que tive a honra fundar em 27.03.2009 e presidir até 26.04.2012), pela promoção tão oportuna em parceria com a UFOPA, que resultou na I FECIMA. Oxalá o exemplo frutifique em outras cidades do Oeste do Pará, onde provavelmente nos próximos anos novos encontros poderão ocorrer com a direta participação do Silogeu obidense, a quem a região ficará devendo uma das mais sérias contribuições que poderão oferecer dois institutos recém fundados para o desenvolvimento da cultura do Pará.

Congratulo-me, portanto, com os que tomarão parte neste foro especializado, não que dele se espere o milagre de resolver sozinho, como por encanto, todos os obstáculos que atentam contra a preservação dos nossos valores culturais. Eles sempre dependerão de muitos outros fatores, sobretudo da firme iniciativa dos poderes públicos, especialmente de legislação municipal que possa em curto prazo ser aplicada e das pessoas incumbidas de cumpri-las.

Porém, a mera existência da oportunidade que foi dada à Academia de Letras, de coordenar no dia 21.07.2012 a mesa redonda para evidenciar os fatos mais relevantes da literatura obidense, em análises que certamente serão debatidas com isenção, voltadas para os vultos e valores da cidade que tanto prezamos, será o início de uma atividade positiva para resgatar o que tivemos e temos de melhor nas letras e nas artes, motivando principalmente a juventude a afastar-se das práticas tortuosas ensinadas pelos meios virtuais ou fora deles, aos quais tantos recorrem por falta de opção e pelo desengano de encontrar coisa melhor ao seu alcance.

(*) Membro da AALO e do Instituto Histórico e Geográfico do Pará.

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2 comentários sobre “RETRATOS E FATOS DA LITERATURA OBIDENSE

  1. ACREDITO QUE A LITERATURA OBIDENSE É MAIS RICA DO QUE SE IMAGINA, O ILUSTRE COLEGA ACABA DE LEMBRAR ISSO. INFELIZMENTE, NÓS, FILHOS DA TERRA, NÃO VALORIZAMOS ESSE LEGADO COMO DEVERÍAMOS. ACABAMOS RESSALTANDO MAIS A LITERATURA DE FORA, NÃO QUE TENHA QUE SER O CONTRÁRIO, MAS NO FUNDO É ISSO QUE SE VE. GRAÇAS A POUCOS, UMA MINORIA QUE AINDA ELEVA DE FORMA GLORIOSA NOSSOS VALORES CULTURAIS ALÉM DAS FRONTEIRAS E DESSA FORMA NÃO DEIXA MORRER NOSSA MEMÓRIA LITERÁRIA EM MEIO A TANTAS OUTRAS PRIORIDADES INÚTEIS QUE CRIAMOS. PARABÉNS

  2. CONTRIBUIÇÃO DE CÉLIO SIMÕES

    Se a I FECIMA significa a oportunidade para mostrar a história da cultura obidense, de antanho e do hodierno, permito-me sugerir que o teu trabalho seja a nossa carta de apresentação, cujo autor tem o mérito especial de ser o idealizador da Academia Artística e Literária de Óbidos e seu primeiro presidente.

    Aos olhos de muitos pode parecer parrésia a onímoda exposição, que com esto descreve a vida de homens valorosos que deixaram herdados e os de agora, seus continuadores, que estão desafiados e estimulados por um grande momento para a “Atenas paraense” apresentar suas credencias, cuja descrição detalhada emite conceitos de alguém que já tem sua marca, feitos e sabedoria reconhecidos.

    As nominações foram tantas, com exemplação de textos, que me permito buscar estímulo nos fundadores da Academia Brasileira de Letras, criada por três brasileiros, dois paraenses, Inglês de Sousa e José Veríssimo e o extraordinário Machado de Assis, o carioca de obras com traços de genialidade ou, ainda, com relevância, aos criadores do decantado Movimento Modernista Brasileiro, Mário de Andrade e José Oswald de Sousa Andrade, este filho da obidense Inês Henriqueta Inglês de Sousa, portanto, um DNA como o nosso.

    Que possamos contribuir realmente para continuar escrevendo a nossa marca, conclamo Célio e todos os poetas, artistas, literatas, menestréis, artesãos e tudo mais que crie, para que sejamos referência e contribuamos para a cultura de nossa cidade, de nosso estado e do nosso país, e que, afinal, doemos o que temos, como os grãos de areia, que juntos, formam o chão, por onde caminha a humanidade, cantados por Thiago de Mello: “Grão de areia, quase nada,/ inútil quando sozinho/ mas que é terra./ A terra,/ quando é grão/ fazendo parte do chão,/ esta coisa firme/ por onde o homem caminha.”

    Ouso-me completar com uma estrofe do “Lago do Curumu”: “Eu vou murmurando: o lago azul mais belo que eu vi/ está perto, bem perto, é na terra do peixe-maná, o jaraqui../ se eu correr muitas terras, ver vales e serras, e andar por aí,/ mas é do meu chão que sinto saudade, pois foi lá onde eu nasci.”

    Aplausos, meu caro Célio Simões! Teu subsídio literário é uma peça histórica e de valor.

    Fernando Sousa.

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